Test Drive Unlimited Solar Crown – Análise

Gabriel Kreyssig Romualdo (@budabytett)
Gabriel Kreyssig Romualdo (@budabytett)

Você conhece a franquia Test Drive? Embora muitos se lembrem principalmente dos jogos Unlimited, a série de corrida teve início no longínquo ano de 1987, chegando aos PCs da época como Amiga, Atari ST e Commodore 64. A estreia foi um sucesso, amplamente elogiada pela crítica e responsável por cerca de 400 mil unidades vendidas. Desde então, a franquia acumulou 22 lançamentos e, é claro, é impossível negar que seus maiores sucessos foram Test Drive Unlimited e Test Drive Unlimited 2, desenvolvidos pela Eden Games – também conhecida pela franquia V-Rally. Explorar as gigantescas ilhas de O’ahu e Ibiza marcou uma geração de gearheads, que desde 2011 ficaram órfãos da série Unlimited.

Em 2020, a Nacon – que adquiriu os direitos da franquia Test Drive em 2016 – revelou oficialmente Test Drive Unlimited Solar Crown, levando os fãs à loucura (tanto no bom quanto no mau sentido). Embora o retorno de TDU tenha sido celebrado, muitos – inclusive eu – ficaram com um pé atrás ao descobrir que o desenvolvimento ficaria a cargo da Kylotonn (KT Racing), estúdio responsável pelos jogos medianos da franquia WRC. Após dois adiamentos (de 2022 para 2023 e, depois, para 2024), Test Drive Unlimited Solar Crown finalmente foi lançado e… deu ruim. O título ostenta um agregado de 55 no OpenCritic e foi duramente criticado por problemas técnicos constantes, falta de conteúdo em comparação aos antecessores e gráficos datados.

Agora, mais de um ano após seu lançamento e com cinco temporadas já disponíveis, cá estamos para conferir o que TDU Solar Crown tem a oferecer. O redator que vos escreve teve como única experiência a beta do jogo, e posso afirmar que minhas impressões iniciais não foram das melhores. Bem, chegou a hora de descobrir se a KT Racing conseguiu tornar Solar Crown uma experiência mais palatável ou se o jogo continua sendo uma bomba.

Campanha ou um grande tutorial?

Solar Crown abandona a simplicidade narrativa dos jogos anteriores e tenta implementar uma campanha mais estruturada, embora o resultado seja questionável. A história se passa na ilha de Hong Kong, onde você é um piloto em ascensão tentando conquistar seu lugar no prestigiado Solar Crown, um festival de corridas exclusivo dividido em dois clãs rivais: os Streets, focados em estilo urbano e cultura de rua, e os Sharps, representando o luxo e sofisticação. A escolha entre os clãs no início do jogo define a sua jornada, embora as diferenças práticas sejam principalmente estéticas.

A narrativa se desenvolve por meio de interações com péssimas atuações e diálogos genéricos que tentam criar drama e rivalidade, mas acabam sendo artificiais e desinteressantes. Os personagens são estereótipos rasos do mundo automobilístico, sem profundidade ou desenvolvimento significativo. As missões da campanha seguem uma fórmula cansada de corridas que tentam justificar sua progressão no ranking do Solar Crown, mas que com o tempo acabam se tornando repetitivas e previsíveis.

O modo campanha de Solar Crown serve basicamente como um grande tutorial para desbloquear novas mecânicas e familiarizar-se com a ilha. Diferente dos TDU anteriores, onde a liberdade e exploração eram protagonistas desde o início, aqui você se vê amarrado a uma estrutura linear que demora demais para liberar todo o potencial do mundo aberto. As atualizações posteriores ao lançamento não trouxeram melhorias significativas à narrativa, focando mais em adicionar conteúdo multiplayer e novos veículos do que em corrigir os problemas fundamentais da campanha.

Começou com o Alpine A110? Você tem caráter! / Reprodução: Autor

Alright, partner, Keep on rollin’, baby, You know what time it is

O coração de qualquer Test Drive Unlimited sempre foi o conceito de MMO automotivo, e Solar Crown tenta resgatar essa essência com resultados mistos. A ilha de Hong Kong é consideravelmente grande, com cerca de 550km de estradas que recriam a região com uma certa fidelidade, incluindo áreas urbanas densas, estradas costeiras sinuosas e montanhas. A exploração continua sendo um dos pontos fortes, com a possibilidade de encontrar outros jogadores no mapa (boa sorte tentando encontrar um), desafiá-los para corridas instantâneas e descobrir pontos de interesse espalhados pela ilha. O sistema de clima dinâmico e ciclo de dia e noite adiciona uma certa variedade visual, embora seja mais superficial do que funcional em relação a gameplay.

O modelo de progressão gira em torno de ganhar reputação através de corridas, desafios e atividades sociais. Você sobe de nível tanto no ranking geral quanto dentro do seu clã escolhido, desbloqueando acesso a novos eventos, carros e personalização. O sistema de clãs, em teoria interessante, acaba sendo puramente estético, com diferenças mínimas na experiência de jogo entre Streets e Sharps além da estética das recompensas. As temporadas pós-lançamento trouxeram novos eventos sazonais, passes de batalha e desafios exclusivos, seguindo o modelo live-service moderno, mas o conteúdo adicional não resolve os problemas estruturais do jogo.

A física de direção é onde Solar Crown mais decepciona os fãs da velha guarda. Enquanto os jogos anteriores ofereciam uma experiência arcade acessível e satisfatória, em Solar Crown a jogabilidade parece indecisa entre priorizar o modelo arcade ou apostar na simulação, ficando num meio termo (o famoso simcade) que não agrada a ninguém. Os carros parecem pesados e desconectados do asfalto, com respostas imprecisas ao volante e uma sensação geral de falta de feedback. O sistema de danos é praticamente inexistente, permitindo que você colida contra paredes e outros veículos sem consequências reais, resultando apenas em um raladinho aqui e ali no seu veículo. Algumas atualizações realizadas pela KT Racing parecem ter tentado ajustar a física, mas novamente, estamos falando de um problema estrutural da jogabilidade de Solar Crown.

A variedade de atividades disponíveis é outro ponto fraco quando comparado aos antecessores. Além das corridas tradicionais (circuito, ponto-a-ponto, velocidade), há entrega de veículos, missões de táxi e algumas atividades sociais como visitar pontos de interesse ou lojas de concessionárias. No entanto, a quantidade e variedade é menor do que em TDU2, e muitos dos eventos secundários tornam-se repetitivos rapidamente. As cinco temporadas lançadas até agora adicionaram novos eventos temáticos e modos de jogo, mas a estrutura básica (olha ela aí de novo) permanece limitada.

O sistema de customização de veículos existe mas é superficial. Você pode ajustar a afinação mecânica básica (suspensão, câmbio, diferencial) e aplicar upgrades de desempenho divididos em categorias como motor, turbo, freios e pneus. A customização visual inclui pinturas, adesivos e rodas, mas as opções são limitadas quando comparadas a outros jogos de corrida da atualidade. A personalização do avatar e dos espaços sociais existe mas é igualmente rasa, com poucas opções realmente interessantes e muitas delas trancadas através de microtransações ou moedas premium.

Mas essa galerinha do Solar Crown já é feia, hein? / Reprodução: Autor

2024? Tá mais pra 2014

Visualmente, Solar Crown apresenta resultados inconsistentes que revelam as limitações da KT Engine, presente há mais de 20 anos na indústria. A ilha de Hong Kong tem seus momentos de beleza, especialmente durante o pôr do sol nas estradas costeiras ou ao atravessar a área urbana iluminada à noite, mas também sofre com texturas de baixas qualidades, pop-in constante de objetos e uma iluminação que parece datada para os padrões de 2024. A qualidade dos modelos dos carros também varia bastante, com alguns veículos apresentando reflexos e materiais convincentes, enquanto outros parecem feitos de plástico.

O desempenho no PC é problemático, com stutterings frequentes durante a exploração de Hong Kong e quedas de framerate em áreas mais densas, mesmo em configurações médias aplicadas em hardware condizente com os requisitos recomendados. Embora não faça uso de ray tracing, TDU Solar Crown entrega configurações de reflexo extremamente custosas ao desempenho, fazendo com que o framerate do jogo despenque para menos de 20fps quando utilizadas no máximo. As atualizações pós-lançamento trouxeram, em teoria, melhorias na estabilidade e otimização, embora a recente Temporada 5 tenha sido duramente criticada por piorar o desempenho do game. Como conseguiram essa proeza? Não faço ideia.

A parte sonora de Solar Crown é uma faca de dois gumes. Enquanto os sons dos motores entregam personalidade e impacto, a trilha sonora, por outro lado, é composta por faixas genéricas e que não marcam presença, diferentemente de outros grandes nomes do gênero de corrida na atualidade, como Forza Horizon e Need for Speed. O som ambiente certamente existe mas é pouco memorável, e a mixagem de áudio frequentemente prioriza a música sobre sons importantes. Apesar dos belos roncos dos carros, a experiência sonora do game é, no geral, medíocre.

Não se deixe enganar: Solar Crown não é graficamente bonito, o ambiente que é / Reprodução: Autor

Não fede, nem cheira

Test Drive Unlimited Solar Crown representa uma oportunidade desperdiçada de revitalizar uma franquia amada. Embora mais de um ano de atualizações tenha expandido o conteúdo disponível e corrigido alguns dos problemas mais graves do lançamento, o jogo ainda sofre com decisões de design equivocadas e execução técnica questionável. A ilha de Hong Kong oferece um playground interessante para a exploração, e há momentos genuínos de diversão ao percorrer suas estradas, mas essas experiências positivas são frequentemente interrompidas por uma jogabilidade insatisfatória, conteúdo repetitivo e problemas técnicos persistentes. Para veteranos esperando o retorno triunfal da série Unlimited, Solar Crown é uma decepção que não captura a magia que tornou os jogos originais tão especiais.

Esta análise é baseada na cópia de PC fornecida pela Nacon e Dead Good PR.

Test Drive Unlimited Solar Crown
5
Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *