Welcome to Doll Town – Análise

Paulo Teles (@yonami.official)
Paulo Teles (@yonami.official)

Arte de capa produzida por Paulo Teles, confira seu trabalho no Instagram @yonami.official

Criado e distribuído pela Bad Wish Games, Welcome to Doll Town é um jogo de um homem só, inserindo elementos de fan service e terror em uma estreia que, apesar de vários deslizes técnicos, ainda consegue entregar um produto com potencial – que infelizmente morreu na praia. Utilizando cenários já conhecidos por leitores de mangás de autores como Junji Ito, o jogador acompanha a personagem principal, Yumi, em uma jornada irregular através de uma vila antes próspera, tornando-se infame por suas lendas urbanas envolvendo a morte de estudantes e rituais obscuros.

E se eu fosse Silent Hill…? Só que não…

À primeira vista, Doll Town chama atenção por sua estética oriental e elementos de mistério também presentes em outros jogos do gênero de terror, particularmente em tempos de Silent Hill f e Fatal Frame II: Crimson Butterfly Remake, cujas influências sobre a obra são evidentes, tratando de temas como suicídio, bullying, vingança, preconceito e outros tabus da sociedade que geram traumas e podem disparar gatilhos emocionais.

A jogabilidade se baseia principalmente na exploração de locais predeterminados e combates esporádicos com as dolls, manequins posicionados a esmo pela cidade sem representar ameaça e que tornam-se agressivos aleatoriamente por eventos trigados. O combate também conta com finalizações que variam de arremessos, suplex (!) e armlocks – no entanto, os momentos de confrontos são inconsistentes e raramente oferecem desafio ao jogador.

Com diálogos longos e cutscenes extensas, o jogo foca bastante no plot e na narrativa, variando entre diferentes períodos e personagens controlados pelo jogador, e apresentando variados momentos da história. Além disso, Doll Town também conta com outros elementos, como reações e dancinhas de TikTok, bem como roupas extras desbloqueadas conforme os diferentes finais alcançados.

Noiva de Frankenstein

O conceito das bonecas dollfie fortalece a direção de arte do jogo, atribuindo um aspecto bizarro à maioria das personagens que lembram marionetes, como um tipo de teatro – similar ao filme Magical Reed Pipe – que abraça uma narrativa apresentada ao jogador como se cada cena fosse um ato de uma peça, com cenários distintos e atores/atrizes principais que se destacam dos figurantes. A história fortalece o background do jogo, trazendo personagens que despertam a curiosidade do jogador que deseja descobrir o destino de cada uma delas.

Entretanto, o game apresenta uma quebra de ritmo bastante acentuada – beirando a inconsistência em determinados momentos –, introduzindo mecânicas de jogabilidade adaptadas a situações específicas de cada período do jogo. Yumi enfrenta as dolls em momentos de tensão que culminam em finalizações com direito a grito de torcida na arquibancada, cenas notadamente montadas com templates colocadas de maneira forçada em momentos inesperados, fazendo com que Doll Town se perca em sua própria identidade por abordar temas tão contrastantes em um único produto.

Identidade e controvérsia

De fato, consistência e identidade são os maiores problemas deste jogo. Doll Town contou com uma campanha de marketing focada principalmente em sua estética visceral, marcada por um filtro de película que lembra filmes antigos, atribuindo ao game uma atmosfera de vídeos gravados com câmeras analógicas (como a 8mm, por exemplo) e em preto e branco, causando um certo desconforto proposital. Aliado à isso, apesar de todo o preparo do público para um jogo de terror pesado, o título apresenta uma jogabilidade baseada em WRESTLING (!), utilizada pela protagonista para destruir seus inimigos com socos de pugilista, pontapés, voadoras, giratórias e SUPLEX.

Num primeiro momento, o público passou a encarar o jogo como uma proposta satírica, com elementos de terror e referências a mestres contemporâneos – como o já supracitado Junji Ito e também Masahiro Ito, da antiga Team Silent –, sendo automaticamente aceito como uma paródia, daquelas para não se levar a sério e apenas se divertir. Entretanto, a recepção dividiu opiniões, levantando críticas à entrega de um produto aparentemente inacabado, além de questionamentos éticos relacionados a temas controversos postos lado a lado com uma abordagem irônica.

Conclusão

Welcome to Doll Town apresenta uma narrativa envolvente e cheia de referências interessantes, mas sua execução carece de polimento. Problemas de jogabilidade, câmera e ritmo comprometem a experiência, tornando o combate repetitivo e frustrando as expectativas criadas pela própria divulgação. Embora haja potencial para melhorias futuras e até mesmo conteúdos adicionais, no estado atual o título não justifica o valor cobrado. Apesar de seus méritos narrativos, conclui-se que o jogo ainda necessita de ajustes significativos antes de se tornar realmente recomendável.

Esta análise é baseada na cópia de PC adquirida pelo autor

Welcome to Doll Town
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