Ah, a Double Fine. Conhecida por títulos como Psychonauts e Brütal Legend, e adquirida pela Microsoft em 2019, o estúdio liderado pelo lendário Tim Schafer é certamente um dos mais criativos da indústria. Mesmo com orçamentos limitados, a desenvolvedora sempre produziu verdadeiras e divertidas obras de arte.
Desde sempre, a Double Fine vem incentivando a criação e o fomento de ideias por meio do projeto Amnesia Fortnight, no qual pequenas equipes internas desenvolvem protótipos em um curto período. O divertidíssimo Costume Quest, por exemplo, surgiu desse momento de criatividade dos desenvolvedores – e, embora isso não esteja confirmado, não tenho dúvidas de que Keeper, o mais novo título do estúdio, também fez parte de um processo similar.
Desenvolvido sob o comando do veterano Lee Petty – diretor de arte de Brütal Legend e Broken Age, e atual líder criativo do estúdio –, Keeper foi apelidado carinhosamente como “jogo do farol” pela comunidade. Nesta análise, iremos abordar o que torna essa aventura de um farol e uma ave marinha rumo ao incompreensível tão especial.
O silêncio traz a mensagem que cada um precisa ouvir
Keeper se inicia com a perseguição de uma bizarra nuvem negra (conhecida como Definhação) a uma ave marinha chamada Ramo. Fugindo do perigo, Ramo pousa sobre um farol abandonado, que então desperta e afasta a Definhação com um raio de luz. O Farol, em seguida, cai ao chão e cria pernas, passando a andar de forma desengonçada junto à misteriosa ave que o acompanha.
A partir daí, passamos a nos aventurar por diversos cenários exuberantes de um mundo que, mesmo em ruínas, parece vivo, tomado pela natureza e por animais místicos. Durante a jornada, presenciamos momentos de viagem no tempo que revelam um pouco das diferentes eras dessa misteriosa civilização.

O jogo se destaca por expressar sentimentos sem utilizar uma única palavra. Não há falas ou rostos definidos, e mesmo assim, a Double Fine conseguiu, com maestria, tornar o Farol um ser expressivo, revelando seus sentimentos junto à ave por meio de movimentos e reações físicas a determinados acontecimentos – além, é claro, de seus efeitos sonoros. Um exemplo muito bonito disso é quando o Farol e Ramo se separam por um instante, e sua luz se apaga, demonstrando tristeza. Ao reencontrar seu amigo, o Farol acende novamente, deixando clara sua felicidade.
Keeper é uma linda jornada introspectiva. Cada jogador absorverá a experiência de uma forma diferente, mas há uma clara mensagem principal de esperança, amizade, transformação e até mesmo de “humanidade” – mesmo que não haja sequer um humano durante toda a experiência. Por diversas vezes me peguei sorrindo durante as interações do Farol com Ramo, uma amizade orgânica e desenvolvida de forma natural, sendo muito bonita de se acompanhar. É aquela típica experiência que a Double Fine sabe fazer muito bem, mesmo sem o envolvimento direto de Tim Schafer. Fico feliz em ver que o estúdio está em boas mãos e espero que nada de mal aconteça – vocês sabem bem do que estou falando.

Iluminando o caminho
Como era possível notar pelo conteúdo divulgado até então, Keeper é um simples jogo de aventura. Caminhamos por belíssimos cenários e resolvemos puzzles utilizando a luz do Farol, sendo auxiliados pela ave Ramo. Inicialmente, a experiência é linear, mas, conforme avançamos, os cenários se tornam maiores, exigindo um mínimo de exploração por parte do jogador para solucionar os puzzles e avançar para a próxima área.
Porém, Keeper não se trata apenas de um “jogo do farol”. A forma como nosso peculiar protagonista se comporta vai mudando com o decorrer da gameplay. Em certo momento, por exemplo, podemos flutuar, envoltos por nuvens rosas que lembram algodão-doce. Já em outro, ocorre uma mudança tão grande que fiquei surpreso com o quanto a Double Fine arriscou algo diferente em meio a uma experiência que parecia tão “fechadinha” em sua proposta. Não darei spoilers aqui – apenas jogue e se surpreenda!

Prints, prints e mais prints
Keeper não é apenas um dos jogos mais bonitos de 2025, mas um dos mais bonitos que já joguei – e não, eu não estou exagerando. O jogo entrega cores vivíssimas, fazendo bom uso do verde, rosa e azul, e, junto à sua direção de arte espetacular, cria cenários de tirar o fôlego, sendo impossível não parar a cada instante para tirar prints. Ainda no aspecto gráfico, há um incrível trabalho de luz e sombra, bem como texturas muito bem definidas – ainda que conceituais, devido ao estilo artístico. Quem diria que um dos melhores exemplos do potencial da Unreal Engine 5 viria de um título desse porte, hein?

Mas é claro, você leu “Unreal Engine 5”. O belíssimo gráfico não viria sem um sacrifício: o desempenho. Em seus requisitos recomendados, Keeper exige uma RTX 4080 ou RX 7900 XT, ambas com 16 GB de VRAM, além de um i7-13700K ou Ryzen 9 7900X como CPU. Estou em algo entre os requisitos mínimos e recomendados, e mesmo assim tive dificuldades para executar o game.
Na resolução 1080p, com qualidade “Muito Alto” e “DLSS Qualidade”, passei a maior parte do tempo entre 30 e 40fps, com diversos momentos de quedas para 20fps e, em um dado momento, insanos 9fps. Já no outro extremo, com a qualidade “Muito Baixo”, é possível manter cerca de 45 a 50 fps na maior parte do tempo – mas com um sacrifício notável na parte da iluminação. Embora os 30 quadros não sejam exatamente ruins para um jogo narrativo, é fato que Keeper poderia ser melhor otimizado. Aqueles com hardwares mais modestos ou PCs portáteis – como o Steam Deck – irão sofrer para ter uma experiência digna.

É claro, também não poderia deixar de mencionar a trilha sonora de Keeper, que emprega faixas misteriosas adaptadas para fazer sentido com cada cenário que estamos presenciando naquele momento. Sabe quando você quer relaxar e procura por músicas de algum jogo junto à palavra “ambience” na internet? Keeper seria basicamente esse tipo de jogo, oferecendo músicas ambiente relaxantes que podem evocar diversas sensações no jogador, como felicidade, tristeza, medo e esperança. Não há uma faixa que marque profundamente, mas todas são suficientemente boas para acompanhar nossa jornada e satisfazer nossos ouvidos.
Double Fine Entertainment
Mesmo sem palavras, Keeper entrega uma experiência memorável e introspectiva, explorando de forma magistral a amizade entre um farol e uma ave marinha em sua jornada para livrar o mundo da Definhação. Com puzzles interessantes, que se aproveitam muito bem do cenário, e visuais de tirar o fôlego – com ressalvas para a otimização –, Keeper demonstra mais uma vez a qualidade e criatividade da Double Fine, que eu sinceramente espero que continue viva sob os braços da Microsoft.
Esta análise foi baseada na versão de PC disponível no Xbox Game Pass.
Confira também a nossa análise em vídeo abaixo:



