MOUSE: P.I. For Hire – Análise

Douglas Souza Dos Santos (@Cliffburtonildo1)
Douglas Souza Dos Santos (@Cliffburtonildo1)

Desde os primeiros trailers, MOUSE: P.I. For Hire já deixava claro que não seria apenas mais um jogo indie com uma estética bonita. O título vai muito além disso, sabendo dosar bem uma gameplay simples e divertida com uma narrativa misteriosa e cheia de piadas com queijo.

Desenvolvido pela estreante polonesa Fumi Games e publicado pela PlaySide, MOUSE: P.I. For Hire é um boomer shooter com temática noir e um visual que saiu diretamente dos desenhos animados dos anos 1930 – o famoso estilo rubber hose.

Vista seu chapéu e sobretudo e vamos embarcar nesta jornada ao lado do sarcástico e destemido Jack Pepper.

Viva para lutar mais um dia

A trama de MOUSE: P.I. For Hire se passa em 1934, na cidade de Mouseburg, uma metrópole habitada por ratos, camundongos e musaranhos. A sociedade ainda está se recuperando das cicatrizes de uma guerra global recente, conhecida como The Quite Big Affair (O Assunto Bem Grande). A cidade é uma paródia direta de uma Nova York dominada pela máfia na época da Grande Depressão. Em Mouseburg, o crime dita as regras e, além disso, há uma “Lei Seca” focada em queijos – o que rende diversos trocadilhos do nosso protagonista e de outros personagens. O queijo derretido é consumido em bares clandestinos como se fosse álcool, enquanto o queijo azul em pó é tratado pelo submundo como uma droga pesada.

Assumimos o papel de Jack Pepper, um herói de guerra ex-policial que agora trabalha como detetive particular. Vestindo o clássico sobretudo e chapéu fedora, Jack carrega seus traumas da guerra e da polícia, mas tem um forte senso de justiça e busca sempre fazer a coisa certa.

Jack aceita um caso aparentemente simples sobre o desaparecimento de um mágico, mas rapidamente descobre que está lidando com algo muito maior: uma complexa rede de corrupção, crimes absurdos e conspirações.

Ao investigar, ele mergulha no submundo de Mouseburg, enfrentando mafiosos armados e policiais corruptos enquanto tenta expor a verdade. Apesar dos temas pesados, a narrativa equilibra bem a tensão com humor ácido e situações absurdas, misturando crítica social com comédia irreverente – algo já bem característico dos desenhos dos anos 1930 e implementado com eficiência em MOUSE: P.I. For Hire.

Acho que me perdi aqui / Reprodução: Autor

Rest in cheese

Além do foco na narrativa, MOUSE: P.I. For Hire também dá grande destaque ao combate. Sinceramente, acabei ficando impressionado com a quantidade de armas disponíveis e com a variedade entre elas. Nosso arsenal conta com dez armas, que vão desde um rifle que atira ácido e derrete a pele dos inimigos até uma motosserra – aos moldes de DOOM – que esfacela tudo à sua frente. Também é possível fazer upgrades em cada arma, liberando disparos alternativos que funcionam quase como uma “ultimate”.

O combate de MOUSE: P.I. For Hire é exagerado e, muitas vezes, visceral. Podemos derreter, congelar, queimar, explodir e até arrancar cabeças dos inimigos, tudo isso com o humor cômico e absurdo típico dos desenhos da década de 1930. Eu imaginava que o jogo não se sustentaria nesse aspecto ao longo das cerca de dez horas de conteúdo, mas, para minha surpresa, ele se mantém muito bem, mesclando combate com exploração de forma equilibrada, sem ficar cansativo.

Na parte de exploração, tudo é bem simples: encontramos cofres trancados que são abertos por meio de puzzles lógicos, alguns com tempo limitado e outros com limite de movimentos. Além disso, coletamos cartas de beisebol – usadas em um minigame –, jornais antigos que explicam eventos passados de Mouseburg e tiras de quadrinhos que mostram momentos da vida do investigador Jack Pepper.

Ao final de cada missão, retornamos ao escritório de Jack para utilizar o quadro de evidências. Nele, podemos visualizar os casos ativos e as pistas relacionadas, além de servir como uma forma de recapitular a história para quem pode esquecer alguns detalhes. Em muitos momentos, investigamos mais de uma pista ao mesmo tempo, e o jogo nos dá liberdade para reunir o máximo de informações antes de voltar ao escritório, analisá-las e seguir seus indícios.

Hmmmm referências / Reprodução: Autor

Um beijo e um queijo

É bem notório que o visual do jogo é totalmente inspirado nos desenhos animados clássicos da década de 1930. Muitas de suas cenas em preto e branco são desenhadas quadro a quadro, com uma qualidade acima da média, acompanhadas de um level design simples, mas bastante didático – principalmente para quem não tem tanta familiaridade com o gênero.

O capricho em cada detalhe das fases é de um primor sem igual. Visitamos diversos locais durante as investigações, que vão de um estúdio em paródia a Hollywood a um teatro, uma ópera, o fundo do mar e até mesmo o inferno – confesso que é a minha fase favorita, onde o jogo solta totalmente a mão do jogador.

Um detalhe bem interessante é que o jogo oferece quatro estilos de apresentação. O modo “Versão de Estúdio” traz uma imagem limpa, com uso mínimo de filtros. Já a “Versão do Diretor” adiciona efeitos visuais moderados e um tratamento de áudio que remete aos filmes das décadas de 30 e 40. No modo “Vintage”, os filtros são mais intensos, entregando um visual clássico de cinema antigo. Além disso, ainda é possível personalizar tudo manualmente, combinando filtros, níveis de degradação sonora e efeitos de granulação na imagem. Um detalhe que parece simples à primeira vista, mas que me fez testar diferentes combinações durante toda a aventura.

Os personagens centrais de MOUSE: P.I. For Hire são um show à parte. Jack Pepper é o protagonista, com muito carisma. Além dele, temos Wanda Fuller, a principal jornalista de Mouseburg, que vive tirando sarro dos trocadilhos de Jack; Tammy Tumbler, que atua como braço direito do detetive, criando invenções e ajudando a melhorar as armas, além de compartilhar do mesmo senso de humor; e Cornelius Stilton, um rato frio e calculista que usa suas conexões com a política para fornecer informações cruciais ao longo da trama.

Tem certeza? / Reprodução: Autor

Meu requeijão alado!

Em relação à tradução de MOUSE: P.I. For Hire, tudo é muito bem feito, com várias piadas localizadas em PT-BR. O jogo ainda inclui memes de internet nas falas dos personagens, que se encaixam bem nas sátiras apresentadas em diversas situações. Junto ao tom bem-humorado e sarcástico do game, tudo acaba se entrelaçando de forma eficiente.

MOUSE: P.I. For Hire aposta em uma trilha sonora original que mergulha no jazz clássico, com arranjos dançantes inspirados nas big bands das décadas de 30 e 40. O ritmo acelerado e a atmosfera noir ajudam a reforçar a identidade do jogo, acompanhando tanto os momentos de investigação quanto as sequências mais intensas de combate.

Um dos destaques é a colaboração com a Caravan Palace, conhecida por misturar swing retrô com batidas eletrônicas modernas. À primeira vista, a parceria pode soar inusitada, mas funciona surpreendentemente bem, criando uma fusão que conecta o estilo clássico do jazz com uma pegada moderna, elevando ainda mais a personalidade sonora do jogo.

Troy Baker brilha na dublagem do detetive particular Jack Pepper. Logo nas primeiras horas, já fica evidente o cuidado na construção do personagem: há peso e uma carga emocional constante em cada fala. Sua interpretação aposta em um tom denso, melancólico e quase depressivo, que combina perfeitamente com a proposta noir.

Com uma narração frequente dos casos, carregada de pessimismo e reflexões sobre propósito e destino, o jogo reforça ainda mais essa identidade. E, embora elogiar Troy Baker já seja comum, em MOUSE: P.I. For Hire ele consegue se destacar de forma especial, elevando o protagonista com uma atuação marcante e cheia de nuances.

Real ou “feiki”? / Reprodução: Autor

Problema é meu nome do meio

No fim das contas, MOUSE: P.I. For Hire se mostra muito mais do que um projeto estiloso apoiado apenas em sua estética. A Fumi Games entrega uma experiência coesa, equilibrando com precisão combate dinâmico, exploração acessível e uma narrativa envolvente, recheada de humor e crítica social na medida certa.

Mesmo partindo de uma base simples, o jogo se sustenta com consistência ao longo de toda a campanha, evitando a repetição ao variar bem suas situações, cenários e mecânicas. Soma-se a isso um cuidado técnico evidente, seja no capricho visual inspirado nos anos 30, na trilha sonora marcante ou na excelente dublagem – que reforça ainda mais sua identidade única.

MOUSE: P.I. For Hire não reinventa o gênero, mas entende perfeitamente suas raízes e executa sua proposta com personalidade, entregando uma aventura memorável, carismática e surpreendentemente sólida do início ao fim.

Esta análise é baseada na cópia de PC fornecida pela PlaySide.

MOUSE: P.I. For Hire
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