Quem cresceu jogando sabe o que significa encontrar um console antigo guardado no armário, tirar a poeira, colocar um cartucho ou disco e descobrir que aquele jogo que marcou uma época da nossa vida ainda está ali. Talvez a imagem esteja diferente das que vemos hoje e o controle já não responda tão bem, mas o jogo continua sendo nosso e continua funcionando. Com os jogos que compramos hoje, no entanto, não temos a mesma certeza.
Durante muito tempo, falar em preservação de videogames parecia uma preocupação de colecionadores, pesquisadores ou jogadores mais nostálgicos. A transformação do mercado tornou essa discussão muito maior. Cada vez mais compramos jogos que dependem de servidores, atualizações, autenticações e serviços mantidos pelas empresas. Quando um desses serviços é encerrado, podemos descobrir que o produto pelo qual pagamos deixou de funcionar.
Não estamos falando de uma possibilidade distante. Jogos são retirados de lojas digitais, servidores são desligados e títulos que tiveram milhares ou milhões de jogadores deixam de ser acessíveis. Em alguns casos, mesmo quem pagou pelo produto perde a possibilidade de utilizá-lo. Foi justamente essa situação que fez o movimento Stop Killing Games ganhar força internacionalmente e colocar uma pergunta aparentemente simples no centro do debate: o que acontece com o direito de quem comprou um jogo quando a empresa decide encerrá-lo?
Essa é uma discussão que encontro no caminho de uma atuação de muitos anos dentro do setor de games no Brasil. Minha trajetória profissional sempre esteve ligada a esse universo e, muito antes de colocar meu nome na política, já participava da organização do setor, do diálogo com desenvolvedores, empresas, associações, jogadores e poder público e da construção de propostas para que os games fossem tratados no Brasil com a dimensão econômica, cultural, tecnológica e social que realmente possuem.

Entre 2022 e 2026, como presidente da Associação de Criadores de Jogos do Estado do Rio de Janeiro, a ACJOGOS-RJ, intensifiquei esse trabalho e participei de uma mobilização que ultrapassou as fronteiras do nosso estado. Foram anos articulando o setor em nível nacional, dialogando com diferentes atores e levando nossas demandas aos espaços de decisão. Uma das principais conquistas desse processo foi o Marco Legal dos Games, que se tornou a Lei Federal nº 14.852/2024 e estabeleceu um novo patamar de reconhecimento para a indústria brasileira de jogos eletrônicos.
Essa construção também exigiu enfrentar disputas importantes sobre o próprio futuro do setor. Durante a discussão do Marco Legal, atuamos para que apostas não fossem confundidas com games e para que uma indústria baseada em criação, tecnologia, cultura e desenvolvimento não fosse colocada no mesmo campo das bets. Foi uma batalha importante porque política pública também se faz definindo com clareza aquilo que queremos incentivar, proteger e desenvolver.
A conquista do Marco Legal mostrou que organização e participação política fazem diferença. Uma demanda que durante anos circulou entre profissionais e entidades do setor conseguiu chegar ao Congresso, mobilizar diferentes forças e se transformar em lei. O trabalho não termina com a aprovação, porque precisamos continuar acompanhando sua implementação e cobrando para que aquilo que conquistamos produza efeitos concretos. Ao mesmo tempo, uma indústria que muda tão rapidamente sempre apresenta novos desafios, e a preservação dos jogos se tornou um dos mais urgentes.
Foi a partir dessa experiência acumulada e do diálogo permanente com o setor que passei a acompanhar de perto a mobilização internacional do Stop Killing Games e a trabalhar para que essa discussão também ganhasse força no Brasil. Não se tratava apenas de reproduzir aqui um movimento criado fora do país, mas de entender como uma preocupação mundial dos jogadores se relacionava com a nossa legislação, com o mercado brasileiro e, principalmente, com os direitos de milhões de consumidores.

A partir dessa mobilização, formulei junto com a deputada federal Jandira Feghali o PL dos Games Vivos, o PL 3.612/2026, levando ao Congresso uma questão que interessa a quem compra jogos no Brasil: se eu paguei por um jogo, por que ele pode simplesmente deixar de funcionar?
A proposta parte de um princípio básico, mas não ignora a realidade da indústria. Não estamos exigindo que uma empresa mantenha servidores funcionando para sempre. Sabemos que jogos têm ciclos comerciais, que tecnologias mudam e que manter uma infraestrutura online tem custos. O que defendemos é que o fim de um serviço não pode simplesmente ignorar quem pagou por aquele produto.
Precisamos construir soluções para que esse encerramento seja transparente e para que o consumidor saiba, com antecedência, o que acontecerá com o jogo que comprou. O PL prevê, por exemplo, que o encerramento definitivo de servidores seja comunicado aos consumidores com antecedência mínima de 180 dias. Essa previsibilidade respeita quem comprou o produto e cria condições para que alternativas possam ser construídas antes que um jogo simplesmente desapareça.

Há ainda uma dimensão que vai além da relação comercial. Um videogame não é apenas um produto que usamos por algum tempo e descartamos. Games contam histórias, registram tecnologias, criam linguagens, movimentam comunidades e fazem parte da memória afetiva de milhões de pessoas. Quem jogou na infância ou na adolescência sabe como determinados títulos, personagens, músicas e experiências acabam associados a períodos inteiros das nossas vidas.
Por isso, a mídia física também voltou ao centro desse debate. Um disco não é necessariamente garantia de preservação, já que muitos jogos atuais precisam baixar arquivos, receber atualizações ou se conectar a servidores para funcionar. Ainda assim, quanto mais dependemos exclusivamente de serviços controlados remotamente, maior é o risco de perdermos definitivamente parte da história dos videogames. Não é razoável que a preservação dessa memória dependa exclusivamente da decisão comercial de uma empresa ou do esforço de colecionadores, pesquisadores e comunidades de jogadores.
Durante décadas, a relação entre jogador e jogo era relativamente clara: você comprava um cartucho ou um disco e aquele objeto ficava com você. Hoje, muitas vezes pagamos por um produto que continua dependendo de servidores e de decisões tomadas por uma empresa que pode, anos depois, decidir encerrar aquele serviço. Essa mudança não pode ser tratada apenas como uma questão técnica, porque envolve direito do consumidor, preservação cultural, memória e a própria relação entre uma indústria cada vez maior e as pessoas que sustentam esse mercado.
É justamente por conhecer esse setor por dentro e participar há anos de suas discussões que considero tão importante levar essas questões para os espaços onde as decisões são tomadas. A experiência do Marco Legal mostrou que o setor de games não precisa ficar esperando que alguém descubra nossas pautas ou decida falar por nós. Podemos nos organizar, formular propostas, construir diálogo e disputar políticas públicas que façam sentido para quem desenvolve, trabalha, empreende e joga.
Defender os games também significa defender quem joga. Daqui a vinte, trinta ou quarenta anos, quem está jogando hoje deveria poder apresentar aos filhos os títulos que fizeram parte da sua infância e juventude. Assim como ainda podemos ligar um Super Nintendo, colocar um cartucho e reencontrar um clássico lançado há décadas, as próximas gerações deveriam ter a possibilidade de fazer o mesmo com os jogos que estão comprando agora.
Talvez os consoles sejam outros, talvez nem existam mais discos e a tecnologia certamente será diferente. O princípio, no entanto, precisa permanecer: se você comprou um jogo, ele não deveria simplesmente desaparecer. É uma pauta que se soma a uma luta que venho construindo há anos para que os games tenham voz, reconhecimento e políticas públicas no Brasil, porque quem vive nesse universo precisa também participar das decisões sobre o seu futuro.
Jogo que se paga não se apaga.



