Fire Emblem é uma daquelas franquias que continua firme e forte mesmo após muitos e muitos anos de existência. Tendo seu verdadeiro renascimento em Awakening, no 3DS, FE trouxe jogo após jogo de sucesso de crítica e público, principalmente no Nintendo Switch. Three Houses foi um verdadeiro fenômeno e mesmo que Engage divida opiniões, é inegável que a Intelligent Systems tem uma fórmula de sucesso. Em sua primeira entrada exclusiva de Switch 2, Fire Emblem: Fortune’s Weave chegou em 17 de setembro de 2026 e já se estabeleceu como um dos jogos mais bem avaliados do ano. Se passando no mesmo mundo de Three Houses (inclusive com direito a uma certa deusa conhecida dando as caras), a proposta desde o início foi capturar a essência de tudo que deu certo e ser o maior e mais ambicioso Fire Emblem já feito. Chegou a hora de descobrir se ele é tudo isso mesmo!
Ah, e vale lembrar que você não precisa ter jogado nenhum outro Fire Emblem para poder curtir esse. ;)
Quatro heróis, um fim do mundo
O que seria um Fire Emblem sem sua história? Como esperado, é nela que passaremos a maior parte do tempo de jogo. Felizmente, mais uma vez FE trás uma história rica e cheia de personagens marcantes, com waifus e husbandos para todo mundo. Curiosamente, a história de Fortune’s Weave começa pelo fim. O mundo está em ruínas pelas mãos de Balor, um deus do submundo. Para tentar reverter isso, você, o protagonista, junto da deusa do destino Fortuna, voltam no tempo para mudar o passado de quatro heróis.
No passado, esses 4 personagens participam dos “Heroic Games” (Jogos Heroicos), um torneio na capital Dagsion em que o vencedor pode realizar um desejo. É aí que conhecemos um pouco mais de cada um deles e suas motivações: Cai é um jovem otimista que quer libertar seu pai preso, Dietrich é um guerreiro orgulhoso que quer desafiar suas próprias habilidades, Theodora é uma rainha que luta em defesa de sua nação e de seu povo e Leda é uma musicista que busca vingança pelo assassinato do seu pai.

A estrutura narrativa do jogo é dividida de formas bem distintas. Você tem os momentos em que controla o seu personagem, Eshmel, também conhecido como “O Salvador”, mas depois volta no tempo em 5 anos para jogar com cada um dos quatro “Heróis das Chamas”. É em cada uma dessas narrativas que você descobre tudo e mais um pouco sobre eles e explora ainda mais suas motivações, vontades, desejos, medos e segredos. Cada bloco de história é razoavelmente longo e cheios de diálogo, todos muito bem animados e com gráficos absolutamente lindos. Cada personagem, mesmo os menos importantes, chama atenção pelos traços lindos e cores chamativas.
Porém é nesse momento que vemos um dos primeiros pontos baixos do jogo para nós brasileiros: A falta de legendas em português. Realmente é uma pena (quase beirando ao absurdo hoje em dia) que um jogo com uma história tão densa e rica fique fora do radar daqueles que não saibam inglês. Visto o suporte legal que o Switch 2 tem recebido de jogos legendados (e até mesmo dublados), é bastante decepcionante que um jogo first party desse calibre não esteja localizado. Isso porque o jogo tem suporte para nove idiomas mas nenhum é o nosso. Só que é aquilo, em um mundo de patches e updates, nunca se sabe se o jogo poderá ganhar uma tradução. Já aconteceu com os Zeldas de Switch, então nunca se sabe. Vamos torcer.
De qualquer modo, não é impedimento para quem domina inglês, mas com certeza vai afastar muita gente. Então, para aqueles que conseguem acompanhar a história, preparem-se para muito papo e intrigas. Apesar de ser um RPG tático no geral (e ter algumas outras atividades que já irei comentar), o jogo as vezes beira uma visual novel em termos de exposição e desenvolvimento de personagens, e não falo isso como algo ruim, muito pelo contrário, mas é importante ter isso em mente caso queira dar uma chance ao jogo. Só que tenha em mente que não é para todo mundo e vejo algumas pessoas ficando cansadas da extensão do jogo.
O que acho interessante é que, ao contrário de Three Houses, a partir de um certo ponto você pode alternar entre os quatro personagens livremente, vivendo as histórias da forma que preferir, como jogando cada uma delas do início ao fim ou jogando cada capitulo alternadamente. Pode não parecer mas isso faz uma diferença grande na maneira como a história é contada. Em vez de escolher um caminho e praticamente abandonar os outros personagens até terminar a campanha, você consegue acompanhar as quatro trajetórias de maneira muito mais orgânica e do seu jeito.
Fora a trama intrincada entre eles, uma situação que parece simples pela perspectiva de um protagonista pode ganhar outro significado quando vista pelo lado de outro. Aos poucos as histórias individuais vão formando uma trama maior até o climax. E vale a pena acompanhar as histórias deles. Os protagonistas começam como personagens pouco simpáticos mas evoluem ao longo da jornada até se tornarem os heróis necessários para salvar o mundo.

O tom da narrativa de Fire Emblem é meio que o de sempre: Meio melodramático com arquétipos e diálogos que não escondem a fórmula que agrada tanto os fãs da série. Digo isso porque além dos principais, nós temos muitos recrutas com suas pequenas histórias e motivações para participar do torneio. São mais de 50 personagens recrutáveis e são todos dublados (em inglês ou japonês). Mesmo que eles não sejam tão profundos quanto os principais, você sempre se apega a alguns em especial que irão te acompanhar em suas batalhas. Vale lembrar que o permadeath (morte permanente) está de volta para aqueles sádicos que preferirem, mas o jogo possui um modo casual com mortes e revives mais tradicionais do gênero. E não só isso como mesmo no modo permadeath você ainda tem uma colher de chá que permite “voltar no tempo” para desfazer algum erro fatal. Então gente só morre pra valer mesmo se você quiser.
E se você notou que quase não falei do seu personagem até agora, é porque ele não tem muito destaque. É aquela história de sempre, o protagonista está ali mais para representar o jogador que ser uma peça fundamental na história e como esperado ele é bem ofuscado pelos quatro personagens principais, se tornando quase dispensável em alguns momentos. Mas eu diria que isso também demonstra a força da narrativa dos 4 heróis das chamas.
Então, para a surpresa de absolutamente ninguém, Fire Emblem: Fortune’s Weave possui uma história rica, complexa e cheia de personagens para todos os gostos. Dando inveja para Suikodens da vida, FW trás uma quantidade impressionante de personagens para conhecer, recrutar e desenvolver, e isso ajuda a dar ao jogo aquela sensação de que você está realmente formando um exército ao longo da jornada. E que jornada.
Mas e o gameplay?
Depois da história, o destaque de Fire Emblem sempre foram as batalhas, e aqui elas brilham como de costume. Com um combate tático que já é marca registrada, Fortune’s Weave pega uma base sólida já estabelecida pelo Engage e anos de franquia e mexe em coisas importantes. O clássico triângulo das armas sai de cena dando lugar a situações mais lógicas. Por exemplo, armaduras sofrem com magia, cavalos são mais suscetíveis a lanças, arqueiros são mais vulneráveis de perto. Não só isso como pela primeira vez na série nós temos até mesmo armas de fogo! As Combat Arts voltam, desgastando a arma a cada uso, e agora dividem espaço com as Blaze Arts, habilidades exclusivas dos protagonistas que custam pontos de vida. No final você está constantemente avaliando suas jogadas e pensando no risco vs. recompensa.

No papel pode parecer que são pequenos tweaks mas na prática a dinâmica das batalhas fica diferente do tradicional. Em vez de simplesmente olhar para o tipo de arma do inimigo e procurar a arma que possui vantagem no triângulo tradicional, você passa a observar as características de cada unidade e procurar brechas específicas. Uma lança que é particularmente eficiente contra cavalaria, uma unidade mais evasiva utilizando armas de punho ou uma magia capaz de desmontar uma defesa pesada podem mudar completamente a maneira como você monta seu grupo. E com tantos personagens, você vai criando diferentes dinâmicas para cada grupo e parte da história.
Isso também deixa a evolução dos personagens mais interessante. Há mais espaço para experimentar e especializar as unidades, em vez de simplesmente seguir um caminho óbvio de vantagens e desvantagens. Conforme seu exército cresce, o número de Combat Arts, habilidades e possibilidades de especialização também aumenta, fazendo com que as batalhas mais avançadas tenham uma quantidade considerável de opções (as vezes até demais :P).

Outro destaque vai para o design dos mapas, que são bem variados e dinâmicos. As batalhas que encerram os capítulos, principalmente as que acontecem na arena de Dagsion durante os Jogos Heroicos, são de longe as melhores do jogo. O fato de serem competições diante de uma multidão, combinadas com elementos como carruagens, mecanismos e até combates envolvendo estruturas especiais, dá a esses momentos uma identidade própria. São momentos em que o jogo realmente aproveita o contexto do torneio para fazer com que algumas dessas batalhas criem situações bem diferentes das tradicionais da série. Existem mapas em que você precisa se adaptar a acontecimentos inesperados, reorganizar suas estratégias e lidar com novas ameaças no meio do combate, em vez de simplesmente seguir até o objetivo inicial. É justamente esse tipo de situação que faz o sistema de combate continuar interessante mesmo depois de dezenas de horas.
Inclusive, vale destacar que graças ao Switch 2 e seus impressionantes Joy-Con 2, Fortune’s Weave tem suporte oficial para mouse pela primeira vez, trazendo uma outra dinâmica para o gameplay tático. Você pode usar movimentando as unidades pelo campo de batalha, acessando informações e interagindo com menus. E realmente faz bastante sentido o uso de um mouse dentro de um RPG tático. Apontar diretamente para uma casa do mapa, selecionar uma unidade ou consultar informações com o cursor é uma solução bastante natural para um gênero que sempre teve uma relação próxima com o PC.
Ainda assim dá para notar que é uma adaptação e que o jogo não foi pensado com controles de mouse em mente. Os menus, por exemplo, obviamente foram feitos para a experiência de controle. Então, tendo o espaço para usar o mouse, pode ser uma nova forma de jogar. De qualquer maneira, você pode alternar entre os controles de mouse e os tradicionais praticamente quando você quiser. A própria Nintendo destaca justamente essa possibilidade de alternar entre os dois métodos como uma das novidades do jogo.

Agora, se você pensa que que Fortune’s Weave para por aí, está enganado. Pela primeira vez na série o jogo também traz combate tradicional de RPG de turno. Pode parecer um pouco estranho mas no final é uma mudança bem vinda de ritmo, mesmo que seja obviamente menos desenvolvido que o estilo de combate principal. Chamadas de “Clash Battles”, elas não fogem muito do que você espera e vê em JRPGs mais tradicionais com combos e ataques em conjunto, talvez beirando até gachas modernos já que ele apresenta um sistema de auto-battle, o que é curioso para dizer o mínimo.
Isso porque essas batalhas ocorrem durante exploração de dungeons. Você controla seu grupo de heróis e navega pelo mapa do mundo, parando em locais específicos para explorar e encontrar itens. Nas dungeons o jogo ganha uma câmera terceira pessoa e funciona de uma maneira bem tradicional com encontro com inimigos e batalhas de turno. É uma ideia é interessante e uma boa quebra de ritmo, mas entendo que para os fãs mais hardcore do combate tático essa parte pode parecer meio simplória demais.
Entre uma batalha e outra
Não é só de combate que FEFW vive. Outro ponto alto do jogo são os momentos mais pessoais entre as batalhas. Você tem um número limitado de dias para se preparar, e nessas horas o jogo lembra bastante Persona nesse sentido (e acho ótimo). Dagsion é uma cidade enorme, dividida em três níveis e cheia de NPCs circulando, onde dá para recrutar aliados, treinar, compartilhar refeições, ir ao teatro e dar presentes. Embora ele não possua um sistema de namoro ou casamento como visto em Three Houses ou Awakening, rola um sistema de vínculos com direito a flertes. Fora da cidade há um mapa-múndi com cidades, mercadores, missões e dungeons exploráveis, onde rola o tipo de combate que falei logo acima.
A quantidade enorme de coisas para fazer não só vai deixar aqueles que gastaram 70 dólares no jogo salivando (R$ 389,90 na versão digital e cerca de R$ 464,90 a R$ 499,90 na versão física padrão), como administrar o tempo é uma das partes divertidas, mesmo que pareça intimidadora de início. Você olha para o calendário e precisa decidir onde vale a pena gastar aqueles dias antes da próxima grande batalha. Treinar um personagem? Melhorar equipamentos? Recrutar alguém? Fazer uma missão secundária? Explorar uma dungeon? Fortalecer seus relacionamentos? É contigo não existem decisões erradas. E o jogo é grande, tá? Espere facilmente 100 horas de jogatina, então esteja preparado.
Esse sistema também ajuda a fazer Dagsion parecer mais do que simplesmente um menu entre uma batalha e outra. A cidade tem bastante movimento e atividades diferentes, e o fato de os personagens circularem por ela ajuda a dar uma sensação maior de vida ao mundo. É uma evolução interessante da estrutura de gerenciamento que Three Houses popularizou.

Mas é aquilo, da mesma forma que rola em Persona, essa “rotina” pode ser exaustiva para alguns. Com o tempo a coisa pode ficar meio repetitiva e você se verá fazendo as mesmas atividades vez após vez. Mas querendo ou não é a própria natureza de uma rotina. A vantagem é que, assim como um gigantes buffet coma a vontade, você não precisa se aprofundar em tudo e se dedicar apenas a uma coisa. Dá pra ir pegando um pouquinho de cada e adicionando ao seu prato. É uma mistureba mas que pode ser saborosa. Num dia você descansa com os companheiros, no oturo você se dedica a explorar dungeons e por aí vai.
No final esse é mais um passo para a “Personização” de Fire Emblem que muitos puristas torcem o nariz. É inegável a influência do gigante RPG da SEGA, mas eu pessoalmente acho uma mudança bem vinda. São essas atividades fora da linha principal que te fazem ficar mais apegado ao mundo e personagens do jogo. E vale lembrar um detalhe importante: É tudo opcional. Se você quiser ser lokão pode ir direto apenas para as tarefas principais para rushar com a história, com direito a botão de skip que avança o calendário automaticamente, algo que não recomendo, obviamente.
Pode parecer clichê mas, Fire Emblem: Fortune’s Weave é mais pela jornada que o destino. E sim, isso significa que Fire Emblem: Fortune’s Weave são os amigos que a gente faz pelo caminho. :v
O jogo é lindo mas tem um custo
Como vocês já devem ter notado (e já esperado atualmente pelas últimas entradas da série), Fortune’s Weave, é um jogo lindo. Os personagens e as classes são os grandes destaques, com designs cheios de detalhes e personalidade, enquanto os cenários são menos impressionantes. Dagsion, porém, se destaca pela quantidade de elementos e pela vida da cidade, e as cenas cinematográficas ajudam bastante quando a história começa a ganhar escala.
Mas isso tem um custo, ainda mais vendo o hardware do pequeno notável da Nintendo. Para evitar instabilidades, o jogo roda a quase cravados 30 FPS na maior parte do tempo, com apenas uns micro engasgos aqui e ali. Para uma experiência mais “relaxada” e cinematográfica de um RPG, é mais que o suficiente eu diria. Claro que ainda assim acho que não custaria nada um modo desempenho com 60 FPS, nem que fosse unlocked.

Mesmo com a limitação dos 30 FPS, o jogo é polido e muito bem otimizado, com carregamentos rápidos e sem bugs, como já esperado de um jogo na Nintendo. Dagsion tem poucas telas de loading e a transição entre mapa e batalha é fluida com menus ágeis e fáceis de usar, apesar de básicos (é, Persona acostumou mal a gente :v). Curiosamente, apesar te toda essa otimização, ele é um jogo bem grandinho para a franquia, mesmo que seja minúsculo perto de jogos ocidentais. FEFW tem 29.5 GB, quase o dobro dos anteriores (Three Houses tem 11.6 GB e Engage tem 16.6 GB).
Inclusive, por falar nisso, um outro ponto que merece destaque é a mídia física do jogo. Ele vem completo no cartucho e pode ser rodado sem instalações. Então nada de downloads digitais ou aquela maluquice dos Game-Key Cards. Não só é uma forma legal de preservar o jogo para futuras gerações e poupar tempo de downloads e instalações como também poupa espaço do Switch 2. Uma pena que isso deveria ser padrão da indústria mas felizmente a Nintendo ainda mantém essa tradição quando se trata de jogos first party.
Ah, e a trilha sonora orquestral é outro ponto muito forte. As músicas conseguem acompanhar tanto os momentos mais íntimos quanto as grandes batalhas, e ajudam a dar uma dimensão épica para a campanha. É uma daquelas trilhas que continuam na cabeça mesmo depois de desligar o console.
Concluindo
Fire Emblem: Fortune’s Weave é um jogo ambicioso, cheio de conteúdo e entrega algumas das melhores batalhas táticas da série. Por outro lado, o excesso de tarefas e repetitividade podem afastar algums mas principalmente a falta de localização em português brasileiro, o que infelizmente o impede de ser algo perfeito. Se você tem tempo, paciência e sabe inglês, FE:FW é facilmente um dos melhores jogos do Switch 2 no momento e um prato cheio para os fãs de RPGs e Fire Emblem, principalmente o Three Houses.
Inclusive, esse é um dos pontos interessantes. FW não tenta simplesmente tentar repetir o sucesso de Three Houses. Ele pega elementos de diferentes fases da série junto com algumas novidades e faz uma mistura legal que cria algo muito maior. O sistema de rotas, a vida entre as batalhas, as dungeons, a especialização das unidades, as novas habilidades e até os controles por mouse mostram uma Intelligent Systems disposta a experimentar sem abandonar aquilo que faz Fire Emblem funcionar.
Nem todas essas ideias acertam em cheio, mas as melhores funcionam muito bem. E quando o jogo coloca você diante de um mapa realmente bem construído, com seu exército completamente desenvolvido, várias possibilidades de estratégia e uma situação que parece impossível de resolver, é difícil não lembrar por que Fire Emblem continua sendo uma das melhores franquias de RPG tático do mercado e continua sendo uma das grandes franquias da Nintendo. Obrigado Masahiro Sakurai por popularizar Fire Emblem no Ocidente
E já sabendo de como a Intelligent Systems leva a série, é certo que não deve demorar muito para vermos um novo jogo. O que será que eles vão aprontar?
Esta análise é baseada na cópia de Nintendo Switch 2 fornecida pela Nintendo Brasil



