The Crimson Hunt é um jogo de survival horror com elementos de stealth e ação over the shoulder ao estilo Resident Evil 4 (2005), desenvolvido e distribuído pelo solodev Farelas, sendo um exemplo de perseverança e paixão, como destaca o próprio solodev em seus devlogs, em meio à cena de jogos independentes atuais e com um orçamento extremamente limitado. Traz uma abordagem saudosista do gênero de games de horror considerado pós-clássico do survival horror, preservando estruturas de progressão e algumas soluções de mecânicas contemporâneas. As influências diretas relacionadas à jogabilidade modernizada da segunda trilogia de Resident Evil (iniciada em RE4) que evoluiu gradativamente com o avanço da franquia a partir do GameCube e subsequentemente na sétima geração de consoles são evidentes.
Além disso, percebe-se a presença de elementos do terror da literatura clássica, dada a temática dos vampiros monstruosos de Drácula (Bram Stoker) e Nosferatu, do expressionismo alemão, transparecendo a estética gótica agradável, com personagens e cenários detalhados, refletindo o amor do autor pelo estilo dark que também influenciou vários filmes dos anos 2000, entre eles Underworld e Blade II, sendo bastante evidenciada com o avanço do jogo e enraizada fortemente nos games de terror anteriores aos anos 2000. Tal estilo também pode ser encontrado no trabalho de autores como Anne Rice, Guillermo Del Toro e Steve Niles.
Literatura e Influência Gótica
Em The Crimson Hunt, o roteiro é elaborado pelas escritoras Cynthia e Jeanine (como são creditadas no game e nas divulgações do game), em que acompanhamos Victoria, uma caçadora de vampiros que vai a uma enorme mansão em uma região isolada em busca de vingança. Ao chegar lá, ela liberta uma jovem chamada Eleanor de seu cativeiro. Eleanor acredita que era mantida como refém para ser usada em algum tipo de ritual bizarro que seria conduzido pelo mestre da mansão e seu séquito de vampiros. Porém, Victoria chega a tempo de evitar que a garota fosse vítima do grupo e resolve guiá-la através da vasta masmorra até uma saída segura do lugar.

Dungeons & Vamps
Basicamente o jogo se divide em áreas bem definidas, sendo elas a Mansão, a Masmorra e as Cavernas, finalizando com uma área distinta dedicada à batalha final do game, com personagens e cenários graficamente atraentes (lembrando a estética presente em Devil May Cry, em alguns momentos), exibindo detalhes ao longo do percurso explorado pelo jogador. O caminho segue rotas muito bem definidas e orientadas por um indicador ativado durante o jogo, exibindo objetivos imediatos e direções a seguir, especialmente ao adquirir itens-chave para abrir portas ou encaixes de puzzles espalhados pelo ambiente, caracterizados muitas vezes por literais quebra-cabeças, ou ao explorar o ambiente e progredir através de alavancas descobertas ao nadar em áreas submersas ou esgueirando-se por buracos e paredes estreitas.

Beat and Shoot’em, não necessariamente nessa ordem
A jogabilidade traz a câmera over the shoulder facilitando a visualização do personagem em relação ao ambiente e a outros personagens, como inimigos e aliados, adicionando recursos de jogos do gênero como ativação de mira, movimentação durante a empunhadura da arma e finalizações com ataques físicos em inimigos atordoados ao serem alvejados em áreas mais sensíveis de seus corpos, fazendo com que Victoria execute chutes e/ou voadoras causando danos ainda maiores. A movimentação é gerenciada através de uma barra de vigor/stamina que se desgasta conforme o jogador executa sprints, esquivas e ataques com armas brancas durante a ação, exigindo que o jogador dedique atenção ao recurso, sendo punido com a exaustão temporária da personagem.

O uso da arma branca (a faca de combate de Victoria e o pé de cabra de Eleanor) também é uma mecânica eficiente facilitando a economia de munição, especialmente quando associada a um recurso oferecido pela assistência de Eleanor ao utilizar uma lanterna ultravioleta equipada, servindo para desorientar os inimigos durante o combate, oferecendo instantes valiosos para ataques mais eficientes tanto com a faca e com um chute seguido de um sprint quanto com armas de fogo. Outra importância da faca está na mecânica de ataques stealth, onde Victoria pode eliminar seus inimigos com investidas furtivas fora do alcance de visão dos alvos, sendo uma mecânica muito comum em outros jogos como na franquia Assassin’s Creed, também implementada no remake de RE4.

Além do combate fortemente liderado por Victoria no single player, o game também oferece um modo cooperativo local que contribui bastante para o fator diversão entre dois jogadores, explorando estratégias de colaboração entre Victoria e Eleanor, que compartilham armas, munições e itens de cura, facilitando a progressão de jogo onde ambos os players podem explorar o ambiente livremente, limitados apenas por ações exclusivas que exigem a presença de Eleanor para abrir portas, ou até mesmo das duas personagens juntas para que Victoria possa auxiliar Eleanor a alcançar áreas mais altas e também puzzles complexos que abrem passagens permitindo acesso a novas salas. Outro fator interessante é a “ressuscitação”, em que, se um personagem tem sua vitalidade exaurida, ele pode ser reanimado pelo outro jogador dentro de um limite de tempo estabelecido (como visto anteriormente em RE5 e outros jogos de ação).
Escolha suas ferramentas com cautela
O arsenal possui uma variedade equilibrada que balanceia o confronto com os inimigos, trazendo pistolas, uma metralhadora, a besta e a clássica escopeta de cano serrado. A princípio, a recarga pode parecer um pouco demorada e frequente por conta da munição limitada no carregamento total das armas mais comuns como a pistola e a própria escopeta; entretanto, isso torna o combate mais estratégico, de modo que o jogador deve gerenciar a frequência dos disparos e otimizar a precisão, priorizando levar os inimigos a ambientes mais fechados, como corredores, facilitando a mira e o alcance de suas armas.

O gerenciamento de itens é também um outro elemento resgatado dos survival horrors clássicos, contando com inventários limitados para ambas as personagens, além de baús, normalmente localizados em áreas seguras junto a save points, para depositá-los, uma vez que munições organizam-se em pequenos blocos acumulados em grupos, além, é claro, de armas que ocupam um ou mais slots na bolsa da personagem, exigindo certa parcimônia do jogador na escolha do equipamento que carregará consigo.

Anjos da Noite
Os inimigos são basicamente vampiros e ghouls rastejantes, caracterizados como monstros e criaturas bizarras que espreitam pelos labirintos das áreas do jogo, em vez de vampiros refinados e elegantes muito comuns na literatura, sendo esse estilo de personagem aqui representado pelo nêmesis de uma das protagonistas, o vilão Edmund, que aparenta estar diretamente conectado ao passado de Victoria. A aventura também conta com a presença de chefes ao fim de determinadas áreas, variando entre gólens de pedra e até mesmo perseguições de morcegos gigantes, atribuindo um grau a mais de desafio à jornada.

A narrativa usa de perspectivas cinematográficas apresentando cenas dramáticas, além de boas atuações interpretadas pelos atores profissionais (possuindo até mesmo legendas em português do Brasil) que compõem o elenco de personagens, sendo um ponto positivo e digno de grandes elogios à produção. Em conjunto com a narrativa, a música é um elemento à parte adicionando tensão em determinados momentos e anunciando confrontos com inimigos importantes, além de oferecer tranquilidade e um certo requinte a determinados diálogos entre Victoria e Eleanor durante sua jornada.

Conclusão
Um produto construído com paixão e sem medo de mostrar suas influências ao longo do percurso através de cada corredor, organizando referências e mecânicas de maneira eficiente, The Crimson Hunt carrega consigo um talento promissor estabelecido através de uma aventura piloto que facilmente pode contar com uma eventual continuação no curto ou médio prazo, dada a recepção positiva por parte do público.
O jogo carrega o peso e a dedicação do desenvolvedor independente que persistiu e lançou um produto. Apesar de eventuais elementos de design simplificados e uma jogabilidade mais crua devido ao desenvolvimento solo e às restrições financeiras, além de alguns detalhes menores que vêm sendo corrigidos e atualizados ao longo do tempo, o resultado final não prejudica em nada o fator diversão. Este é um jogo que fortalece a cena e serve como um excelente portfólio de um potencial criador que, com a oportunidade e o investimento certos, pode trazer grandes produtos de alto nível com a mesma força entregue nesta obra autoral.
A experiência reforça o gênero e, mais ainda, mostra ao jogador que desenvolvedores e artistas independentes podem oferecer produtos de valores acessíveis e de qualidade ao público, fazendo de The Crimson Hunt uma escolha formidável para jogadores que valorizam o cenário indie.
Esta análise é baseada na cópia de PC adquirida pelo autor






