Gennady – Análise

Douglas Souza Dos Santos (@Cliffburtonildo1)
Douglas Souza Dos Santos (@Cliffburtonildo1)

Imagine o seguinte cenário: um sujeito rabugento, vestindo apenas uma cueca, acorda de repente em uma fábrica de carne alienígena. Isso é Gennady!

Desenvolvido pelo estúdio Feed 64 e distribuído pela Vsoo Games, Gennady é uma mistura hardcore de plataforma e roguelite. Um game muito peculiar, com cenários bizarros e muito humor negro.

Vem comigo nesta análise, vasculhar mais a fundo tudo sobre essa experiência tão única!

Reflexões em meio ao caos! / Reprodução: Autor

Parece que estou em casa, por isso estou de cueca

Estamos na pele de Gennady, um homem comum – de cueca – que acaba dormindo no ônibus a caminho do trabalho e acorda abduzido em uma fábrica de carne alienígena no espaço, onde precisa lutar – de cueca – para não virar comida.

Movido pelo puro instinto de sobrevivência de um bom cidadão da mãe Rússia e por muito sarcasmo, nosso protagonista passa a usar o próprio corpo como um projétil vivo e rouba armas alienígenas para destruir as instalações e encontrar um caminho de volta para casa.

A forma como vamos conhecendo a história de Gennady é como em todo roguelite: a cada run, recebemos informações a conta-gotas sobre o passado dele e o porquê de estar ali, naquela fábrica de carne alienígena. O game conta essa história por meio de HQs que encontramos durante as fases, onde podemos montar todo o quebra-cabeça dessa narrativa pra lá de maluca!

I need more poweeeer / Reprodução: Autor

Na estupidez dos outros, eu vejo uma oportunidade

O gameplay de Gennady é bem característico, já que vamos abrindo caminho por corredores em constante mudança, ou seja, cada fase do game é gerada proceduralmente. Isso torna o jogo um grande desafio, independente do bioma, visto que podemos dar de cara com uma sequência de plataforma extremamente precisa na reta final, tornando o fim da run um pesadelo.

De início temos à nossa disposição apenas os socos frenéticos de Gennady, que têm pouco dano, mas causam concussão nos inimigos. Pra ser sincero, é uma péssima arma no início do game, devido ao seu baixo dano e alcance mínimo, o que obriga o jogador a ficar colado nos inimigos o tempo todo. Usar os socos frenéticos contra os chefes foi um pesadelo para mim.

Mas o que tornou Gennady um passeio no parque foi a arma espacial, que atira bolas de plasma e superaquece em alta cadência. O jogo vira outro assim que a desbloqueamos, o que achei bem desbalanceado, muito por conta do tempo que passamos para liberar a arma, que chega tarde demais ao nosso arsenal.

Além desse pequeno arsenal, temos um dash em quatro direções, que serve para quebrar os Bioblocks e causar dano nos inimigos. Junto a ele, também temos um modo fúria, em que ganhamos velocidade acima do normal e invencibilidade. Conseguimos estender a duração da fúria esmagando inimigos e quebrando Bioblocks.

Durante as runs, encontramos a loja do Sho e o café da Zina, que são muito importantes para se dar bem no game. No café da Zina, recebemos um item passivo gratuito, que traz vantagens para a sobrevivência do personagem e para nossas armas. Na loja do Sho, trocamos larvas por suprimentos como vida e escudo, além de itens com passivas (artefatos) para dar aquele upgrade na run. É um alívio encontrar a loja do Sho durante a run, já que o checkpoint da fase sempre fica ao lado do nosso amigo.

Só precisamos de uma cueca e uma arma espacial! / Reprodução: Autor

Não ligue a TV!

Gennady possui quatro biomas bem diversificados, e cada um contém até três checkpoints para dar aquela ajudinha durante as sessões de plataforma, já que elas são, em sua grande maioria, bem desafiadoras.

Minhas primeiras horas em Gennady foram bem frustrantes, principalmente pelo jogo ser bem punitivo, com algumas sequências de plataforma precisas e sacanas. Também pesou minha dificuldade de chegar com bastante vida ao final dos biomas e, assim, enfrentar os chefes com tranquilidade.

Acabei conseguindo contornar essa dificuldade utilizando a mecânica do recipiente, um item importantíssimo para futuras runs. Resumindo, ele serve para manter mais itens após a nossa morte, podendo guardar até oito artefatos ou vantagens, o que torna as futuras runs bem mais fáceis e equilibra, pelo menos parcialmente, a dificuldade do game.

Todo o cenário de Gennady é preto e branco e bem escuro, e só enxergamos o que está a poucos metros do personagem, já que Gennady possui uma aura em volta dele que ilumina o ambiente. Então, se o jogador tentar avançar o mais rápido possível – o que o tutorial do jogo incentiva só de sacanagem –, vai acabar falhando em poucos minutos. O jogo apresenta diversos feedbacks visuais que sinalizam perigos e armadilhas, algo muito bem-vindo. Gosto bastante de como esses alertas permitem que o jogador reaja aos obstáculos, em vez de precisar superar determinadas sessões de plataforma apenas decorando a sequência de movimentos.

Gennady possui uma variedade considerável de artefatos e vantagens / Reprodução: Autor

Ei camarada, e o traje espacial?

Em cada bioma de Gennady, temos uma Sala do Desafio, que consiste em sessões de sobrevivência, com hordas de inimigos, ou sessões de plataforma verdadeiramente árduas. Essas salas garantem recompensas de alta raridade, que podem fazer diferença na sua run.

De início eu estava ignorando essas salas, pois minhas últimas tentativas tinham ido por água abaixo. A partir do momento em que comecei a frequentá-las em todas as runs, porém, as recompensas literalmente me carregaram até o final. Uma dessas recompensas foi o artefato Cofrinho, que multiplica nossas larvas ao chegar a um checkpoint e faz o jogador sempre ter grana para comprar melhorias, vida e escudos.

Larvas devem fazer bem ao cérebro / Reprodução: Autor

Hoje, realmente é um dia especial!

No total, Gennady tem quatro chefes, com batalhas simples e interessantes, em que cada uma possui um gimmick específico para quebrar o escudo do chefe e assim causar dano a ele. Os chefes, entre si, não são tão difíceis; o maior problema mesmo é chegar com vida e escudo cheio até eles.

A animação de Gennady é claramente inspirada em Earthworm Jim, com visuais grotescos e fascinantes. Os detalhes da fábrica de carne alienígena são incríveis, o cenário é muito bem feito e cheio de vida, com uma animação lindíssima, feita quadro a quadro e desenhada à mão. Adorei toda a arte e a estética das HQs de Gennady, onde todas as cenas são em preto e branco, com foco total no alto contraste, um charme à parte.

Até a data desta análise, o quarto e último bioma apresenta falhas de áudio e desempenho, com picotes no som e quedas na taxa de quadros devido ao excesso de inimigos. Esses entraves atrapalham o gameplay, já que o quarto bioma conta com inimigos que escurecem a tela e impedem o uso do dash, tornando as runs um verdadeiro caos de problemas técnicos misturados a alta dificuldade.

Essas salas de desafio são um tormento!!! / Reprodução: Autor

Larvas que devoram mentes

Gennady foi uma daquelas experiências em que precisei apanhar bastante até entender como tudo funcionava. Minhas primeiras horas foram marcadas por runs frustrantes e uma dificuldade enorme para chegar aos chefes em condições confortáveis para enfrentá-los. Mas, conforme fui entendendo suas mecânicas, explorando as salas de desafio e descobrindo combinações de artefatos, comecei a enxergar o quanto essa maluquice toda poderia ser divertida. É muito satisfatório perceber como pequenas melhorias podem transformar completamente uma run e fazer aquele obstáculo que parecia impossível se tornar apenas mais um desafio pelo caminho.

O que realmente me conquistou em Gennady foi sua personalidade. Desde o protagonista rabugento andando de cueca até a fábrica de carne alienígena, passando pelas HQs e pelos visuais grotescos, tudo parece ter sido pensado para entregar uma experiência fora do comum. Sua direção artística desenhada à mão também merece destaque, trazendo um charme especial para esse universo tão bizarro.

O arsenal inicial pouco eficiente, o desbalanceamento causado pela arma espacial e algumas sequências de plataforma excessivamente punitivas são problemas que poderiam receber mais atenção.

Ainda assim, Gennady conseguiu me surpreender. É um daqueles jogos independentes que não têm medo de abraçar suas próprias esquisitices e construir uma identidade em torno delas. Pode não ser uma experiência para todos, principalmente para quem não tem paciência com jogos punitivos, mas, para quem gosta de roguelites desafiadores e não se importa em morrer algumas dezenas de vezes pelo caminho, essa viagem por uma fábrica alienígena vale muito a pena.

E, convenhamos, poucas aventuras são tão peculiares quanto tentar salvar a própria vida usando apenas uma cueca e uma arma espacial.

Esta análise é baseada na cópia de PC fornecida pela Stride PR, Feed 64 e Vsoo Games

Gennady
7.5
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