Ground Zero – Análise

Pierry Lima (@Pierry8Bit)
Pierry Lima (@Pierry8Bit)

Durante anos, os fãs de survival horror reclamaram que o gênero havia perdido sua identidade. Entre remakes, jogos focados em ação e experiências cada vez mais cinematográficas, aquela sensação de vulnerabilidade dos clássicos parecia ter ficado presa nos anos 90. Foi nesse cenário que Ground Zero apareceu quase sem fazer barulho, prometendo trazer a atmosfera que os grandes nomes do gênero entregavam, mas sem parecer uma cópia barata. A boa notícia é que ele entrega exatamente isso. A má notícia é que, em alguns momentos, talvez entregue até demais.

Um desastre anunciado

A história nos leva para o ano de 2030, em uma Coreia devastada após a queda de um misterioso meteorito. Controlamos Seo-Yeon, uma agente enviada para investigar o incidente e descobrir o que realmente aconteceu na região afetada.

Embora a premissa pareça simples à primeira vista, Ground Zero rapidamente mergulha em temas que misturam ficção científica, conspirações governamentais e horror biológico. É impossível não enxergar influências de Resident Evil, Dino Crisis e até alguns elementos de horror cósmico.

O problema é que a narrativa raramente surpreende quem já é veterano do gênero. O jogo conta sua história de forma competente, mas muitos dos acontecimentos parecem familiares. E apesar de exagerar em algumas explicações e longas cenas que poderiam ser resumidas em um arquivo, o mistério é envolvente o suficiente para manter o interesse até o final.

Reprodução: Divulgação

Survival Horror raiz

Se eu pudesse definir Ground Zero em uma palavra, seria “comprometimento”. O jogo abraça, sem vergonha, elementos que muitos títulos modernos abandonaram há anos. Câmeras fixas, gerenciamento de recursos, inventário limitado, quebra-cabeças e exploração meticulosa estão todos presentes.

Ao mesmo tempo, os desenvolvedores tomaram o cuidado de modernizar algumas mecânicas. O combate é mais responsivo do que nos clássicos e inclui esquivas, parries e um sistema de tiros críticos que recompensa precisão – mesmo que eu tenha sofrido um bocado para me acostumar a usar essa mecânica – tornam a experiência com o game bem mais tranquila. O resultado é curioso. Em vários momentos, Ground Zero consegue parecer um jogo perdido da era PlayStation 1 que recebeu uma atualização tecnológica uns trinta anos depois.

Por outro lado, algumas dessas melhorias acabam reduzindo parte da tensão. Quando dominei o sistema de tiro crítico, a escassez de recursos deixou de ser uma preocupação tão grande quanto deveria. E acabei experimentando um leve gostinho de Resident Evil, onde da metade final em diante da jornada, não sentia mais necessidade em poupar nada, e o acúmulo de munições e itens de cura foi ficando cada vez maior.

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Atmosfera acima de tudo

É na ambientação que Ground Zero realmente brilha. A cidade destruída, os corredores escuros, os laboratórios abandonados e, principalmente, o design das criaturas ajudam a criar uma sensação constante de desconforto. Não é necessariamente um jogo que aposta em sustos baratos. Seu foco está mais na construção gradual da tensão. Foram poucos momentos de jump scares, e às vezes sentia que o game estava brincando comigo quando abria o ângulo da câmera, mostrando uma janela gigantesca de onde poderia surgir um inimigo gigante, mas nada acontecia. Os anos de Resident Evil me deixavam com um pé atrás em certos momentos.

A direção artística faz um trabalho impressionante ao misturar nostalgia e modernidade. Os cenários remetem diretamente aos survival horrors clássicos, mas possuem um nível de detalhamento que impede a experiência de parecer apenas um exercício de nostalgia. Existe um sentimento de familiaridade com os locais, mesmo nunca tendo jogado o game antes. O parque me trouxe um pouco de Silent Hill 3, e o caos na cidade trouxe memórias nostálgicas de Resident Evil 3. Foi realmente divertido explorar cada m² destes cenários.

A trilha sonora também entende perfeitamente seu papel. Muitas vezes ela desaparece completamente para deixar o ambiente falar por si só, aumentando ainda mais a sensação de isolamento e trazendo incerteza do que vamos encontrar na próxima porta.

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Explorar vale a pena

Ground Zero incentiva a exploração constantemente e recompensa jogadores atentos com documentos, equipamentos e rotas alternativas que podem conter itens que ajudarão muito na progressão dos cenários.

A inspiração em Resident Evil não se limitou apenas ao estilo gráfico, às câmeras ou ao combate. Em momentos-chave da campanha, vamos nos deparar com algumas escolhas que podem alterar eventos, áreas visitadas e até o desfecho da história. Essa abordagem aumenta bastante a rejogabilidade. Não é o tipo de jogo que termina e imediatamente sai da memória. Existe um incentivo genuíno para voltar e descobrir o que ficou para trás e explorar novos caminhos e finais.

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Nem tudo funciona

Apesar de todas as qualidades, Ground Zero não escapa de alguns problemas. As câmeras fixas, por mais nostálgicas que sejam, ocasionalmente prejudicaram minha progressão. Por vezes, fui atacado por inimigos que estavam fora do campo de visão por conta de uma escolha ruim de posicionamento da câmera, e algumas mudanças bruscas de ângulo atrapalharam a movimentação, ocasionando encontros indesejados com a morte.

O ritmo também apresenta algumas quedas na reta final. Certas áreas parecem se estender além do necessário, e o excesso de backtracking acaba diminuindo parte da tensão construída anteriormente. Lá pra metade final da campanha, me deparei com algumas ruas alagadas, e a única maneira de progredir era usando um barco. Isso não seria problema, caso as distâncias entre um ponto e outro fossem mais curtos, pois chegava a ser ridículo o tempo de deslocamento para chegar em uma sala que eu literalmente só encontraria um item-chave e um item de cura.

Os inimigos possuem uma certa variação: zumbis normais, zumbis que eclodiram um parasita – bem parecido com o Las Plagas de Resident Evil 4 –, alguns animais zumbificados, soldados de elite e até mesmo dinossauros estão presentes. Porém, somente os dois primeiros não pertencem a um trecho específico, o que acaba deixando o combate bem tranquilo. Além disso, a dificuldade perde força conforme aprendemos os sistemas de combate. O início é bastante desafiador, mas a segunda metade se torna consideravelmente mais fácil.

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Conclusão

Ground Zero talvez não seja o survival horror mais original que você vai jogar, mas é certamente um dos que mais entendem a essência do gênero. Ele olha para o passado com respeito, sem esquecer de trazer melhorias que o tornam mais agradável nos dias atuais. Mesmo com problemas de ritmo, algumas escolhas questionáveis de design e uma dificuldade que perde força na reta final, sua atmosfera, exploração e compromisso com o terror clássico fazem dele uma experiência que qualquer fã de Resident Evil, Silent Hill ou Dino Crisis deveria conhecer.

Esta análise é baseada na cópia de PlayStation 5 fornecida pela Masamune e Kwalee

Ground Zero
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