Existe uma regra não escrita nos jogos de sobrevivência: o mundo precisa te destruir. Seja uma horda de zumbis, criaturas monstruosas, o frio, a fome ou até outros jogadores online, o gênero sempre foi construído em cima da ideia de que estamos sozinhos em um ambiente hostil e precisamos lutar contra ele para continuar existindo. Solarpunk olha para essa fórmula e pergunta: e se sobreviver não fosse sobre resistir, mas sobre reconstruir?
Essa é a grande identidade do jogo. Em vez de nos colocar em uma terra devastada onde cada recurso é uma disputa pela sobrevivência, somos levados a um conjunto de ilhas flutuantes banhadas pelo sol, tomadas por vegetação e movidas por tecnologias sustentáveis. Não existem monstros à espreita, não há noites desesperadoras tentando defender uma base e nem aquele sentimento constante de que qualquer erro pode significar o fim da sua jornada. E pode parecer estranho dizer isso sobre um jogo de sobrevivência, mas a ausência de perigo é justamente aquilo que torna Solarpunk especial.
Um novo tipo de sobrevivência
Os primeiros minutos de jogo me causaram uma certa estranheza, principalmente porque venho de títulos “mais tradicionais” do gênero. Não existe um tutorial cheio de urgência dizendo que você vai morrer de fome em alguns minutos ou um inimigo servindo de ameaça inicial. Simplesmente acordamos em uma pequena ilha e precisamos descobrir como transformá-la em um lar.
O ciclo básico é familiar: coletamos madeira, pedras, fibras e outros materiais naturais, construímos nossas primeiras ferramentas e desbloqueamos novas estruturas através do sistema de pesquisa. Mas a forma como o jogo apresenta essa progressão é muito mais relaxante.
Cada novo item desbloqueado abre possibilidades diferentes. Uma simples bancada de criação eventualmente se transforma em uma rede de máquinas, sistemas de produção, plantações e equipamentos tecnológicos capazes de tornar a sua ilha praticamente autossuficiente.
Existe uma satisfação muito grande em olhar para aquele pequeno espaço vazio do começo do jogo e perceber que, horas depois, ele se tornou um verdadeiro ecossistema tecnológico funcionando graças às nossas próprias decisões.
Botando a mão na massa
Talvez a mecânica mais interessante de todo o jogo seja o gerenciamento de energia. Como o próprio nome já sugere, a energia solar está no centro da experiência. Construímos painéis solares para captar energia durante o dia, armazenamos essa produção em baterias e distribuímos eletricidade para alimentar máquinas, sistemas de fabricação e equipamentos mais avançados. É um sistema relativamente simples, mas extremamente satisfatório.
Em vários momentos estávamos reorganizando nossa base não porque o jogo exigia, mas porque queríamos deixar tudo mais eficiente. Mudar a posição de uma máquina, criar uma área específica para produção ou expandir o sistema de armazenamento de energia se tornam pequenas tarefas que dão uma enorme sensação de progresso. É quase como se Solarpunk pegasse a criatividade de um jogo de construção e misturasse com a satisfação de criar uma pequena fábrica automatizada.
Conforme avançamos, o jogo começa a introduzir esteiras, dispositivos automáticos e outros sistemas que diminuem o trabalho manual. Aquele processo que no início exigia que o jogador coletasse e produzisse tudo sozinho passa a ser parcialmente automatizado. E essa transição é uma das maiores recompensas da experiência.
Não é por necessidade, mas por prazer
Se em Minecraft construímos uma casa porque precisamos nos proteger dos perigos da noite e em The Forest uma boa base pode ser a diferença entre sobreviver ou virar o jantar de algum canibal, em Solarpunk a construção existe por um motivo muito mais simples: porque é divertido.
O sistema de construção oferece uma boa variedade de peças, permitindo criar casas suspensas, oficinas, jardins, passarelas conectando diferentes áreas da ilha e espaços totalmente personalizados. É fácil perder horas ajustando detalhes que, na prática, não fazem nenhuma diferença na jogabilidade. Um telhado melhor posicionado, uma varanda com uma vista bonita, uma pequena plantação ao lado da casa ou um jardim decorativo.
E isso acontece porque o jogo cria um sentimento de pertencimento raro. Não estamos apenas criando uma base. Estamos criando uma casa. Claro, ainda existem limitações. Algumas peças de construção poderiam oferecer maior variedade e jogadores mais criativos podem eventualmente sentir falta de opções de personalização mais avançadas, principalmente quando comparado com gigantes do gênero. Ainda assim, a base do sistema é extremamente promissora, e nada que atualizações futuras não possam expandir e melhorar essa experiência.
A vida sustentável nas alturas
Além da tecnologia, Solarpunk também abraça um lado mais natural. O cultivo de plantas, a coleta de sementes e a criação de áreas de agricultura fazem parte da rotina do jogador. Produzir nossa própria comida e organizar plantações se encaixa perfeitamente na proposta de criar um ambiente sustentável.
É interessante como o jogo evita transformar esses sistemas em obrigações cansativas. Eles existem como mais uma peça dentro da construção da sua própria comunidade flutuante. Tudo se conecta; a energia alimenta suas máquinas, suas máquinas ajudam na produção, a agricultura garante recursos e a expansão da base permite criar novas possibilidades. É um ciclo simples, mas muito viciante!
Em busca de novas possibilidades
A exploração é outro elemento importante da experiência. As ilhas flutuantes escondem novos recursos, estruturas abandonadas, itens importantes e tecnologias que ajudam na progressão. Mas, se tem uma coisa que eu simplesmente viciei em fazer, foi voar pelo mundo. E esse é um dos grandes destaques da experiência.
Utilizar um dirigível para atravessar grandes distâncias entre ilhas é uma experiência extremamente prazerosa. Existe algo quase terapêutico em entrar na cabine, ligar o motor e simplesmente observar aquele mundo verde passando abaixo de você. É uma espécie de sensação de liberdade que combina perfeitamente com a proposta do jogo.
Porém, conforme mais horas são colocadas na campanha, alguns problemas começam a aparecer. A exploração poderia ser mais recompensadora. Muitas ilhas possuem uma estrutura semelhante e faltam eventos inesperados que façam cada descoberta parecer realmente única. Depois de certo ponto, você começa a visitar novos locais não necessariamente pela curiosidade do que vai encontrar, mas porque sabe que precisa de determinado recurso para continuar avançando.
Com amigos é mais gostoso
Minha experiência com o game foi, em sua maior parte, em Co-op com meu amigo Gabriel, o que transformou completamente a experiência pra mim. É muito mais divertido se ferrar e descobrir novas mecânicas, organizar a base e desbloquear upgrades com os amigos. Dividir as tarefas deixou a progressão mais dinâmica. Enquanto um cuidava das plantações, outro focava na coleta de recursos, na construção de novas áreas ou no desenvolvimento de tecnologias.
Além disso, existe um prazer enorme em observar uma pequena ilha se transformar em uma grande cidade sustentável construída em conjunto. É aquele tipo de jogo que naturalmente cria histórias próprias entre amigos: o projeto de uma casa gigantesca, uma área de produção exagerada que ninguém realmente precisava construir ou a discussão sobre qual será o próximo projeto da base.
Um mundo que transmite paz
Solarpunk é um jogo encantador. Sua direção artística aposta em uma estética colorida, com muita vegetação, estruturas de madeira, máquinas de aparência simples e uma visão de futuro que não depende de cidades frias de metal e concreto. É um futuro otimista, algo que se tornou cada vez mais raro na ficção científica moderna.
A trilha sonora acompanha perfeitamente essa ideia. Em muitos momentos ela fica em segundo plano, permitindo que os sons do vento, da natureza e das próprias máquinas criem uma atmosfera relaxante.
Depois de algumas horas, você deixa de jogar com um objetivo específico e simplesmente passa a aproveitar a existência naquele lugar. E isso é um enorme elogio, pois é um jogo que não possui combates, inimigos ou grandes eventos dramáticos.
Nem tudo é perfeito
A grande tranquilidade que faz Solarpunk se destacar também pode ser o motivo pelo qual alguns jogadores abandonem a experiência rapidamente. Quem procura desafios constantes ou uma sensação de perigo provavelmente vai sentir que falta algo.
Além disso, a progressão pode se tornar repetitiva em determinados momentos. A coleta de materiais, principalmente nas horas mais avançadas, pode exigir bastante trabalho até que os sistemas de automação estejam realmente estabelecidos. A falta de uma narrativa mais presente e de eventos mais marcantes também prejudica a sensação de descoberta. O mundo é lindo e interessante, mas muitas vezes parece um cenário esperando por histórias que ainda não foram contadas.
Existe também aquela sensação de que muitos dos seus sistemas possuem um enorme potencial, mas ainda precisam de mais conteúdo e profundidade para alcançar o máximo que podem oferecer.
Conclusão
Solarpunk não é um jogo de sobrevivência que vai fazer seu coração acelerar. Ele não quer que você conte cada recurso do inventário, se preocupe com uma criatura aparecendo no meio da noite ou passe horas construindo uma fortaleza para se proteger.
Ele quer exatamente o oposto.
Ele quer que você construa uma casa com uma vista bonita, organize uma plantação, automatize sua produção e, ao olhar para sua pequena ilha flutuante, pense: “caramba, eu criei tudo isso”.
Ainda existe espaço para mais conteúdo, maior variedade na exploração e sistemas mais profundos, mas a sua identidade é algo extremamente raro dentro do gênero. Em uma época onde quase todo jogo de sobrevivência tenta mostrar como o mundo acabou, Solarpunk decide imaginar como poderíamos reconstruí-lo. E talvez seja justamente essa sua maior qualidade.
Esta análise é baseada na cópia de PlayStation 5 fornecida pela Mark Allen PR e rokaplay











