Mixtape – Análise

Gabriel Kreyssig Romualdo (@budabytett)
Gabriel Kreyssig Romualdo (@budabytett)

Desenvolvido pelo estúdio australiano Beethoven & Dinosaur, conhecido pelo belo e premiado The Artful Escape, e publicado pela Annapurna Interactive – essa sim, uma das publicadoras mais confiáveis do mercado quando o assunto é arte interativa –, Mixtape chegou em 7 de maio de 2026 para todas as plataformas modernas, e rapidamente se tornou um dos títulos mais comentados e, convenhamos, mais polêmicos do ano. Já adianto: a polêmica é burrice. Mas calma que a gente chega lá.

Vem comigo nesta análise de um dos jogos mais bonitos, emocionantes e – sim – importantes de 2026!

Blue Moon Lagoon, última noite

Mixtape nos coloca na pele de Stacy Rockford, uma adolescente apaixonada por música que sonha em se tornar supervisora musical desde criança – aquela pessoa responsável por escolher quais canções entram em filmes e séries, caso você não saiba o que é isso. É a última noite do ensino médio, e Stacy, junto de seus dois melhores amigos, o descolado Van Slater e a pragmática Cassandra Morino, percorre a sonolenta cidade de Blue Moon Lagoon em direção a uma festa que promete ser histórica. O destino, porém, importa menos do que a jornada – e é nesse trajeto que o jogo conta tudo o que precisa contar.

Eu amo esse trio / Reprodução: Autor

O que distingue Mixtape de uma simples história de adolescentes é o modo como o jogo trata a memória. Cada grande momento da noite é desencadeado por uma música da fita cassete de Stacy, e cada faixa lança o jogador em um “vinheta de memória” estilizada – não realista, mas uma versão exagerada e emocional de como os adolescentes se lembram das coisas. É uma escolha narrativa brilhante, e que diferencia Mixtape de praticamente tudo que já joguei.

Rockford, Slater e Cassandra formam um trio incrível de personagens, cada um com muito mais profundidade do que aparenta. Há um trabalho cuidadoso na construção de Rockford: o conceito de “um jogo de mixtape” foi claramente pensado antes da história ser escrita, mas a Beethoven & Dinosaur realmente refletiu sobre que tipo de pessoa insistiria em ouvir uma mesma playlist o dia inteiro. Como ela se sentiria em relação à música? Por que essa estrutura seria tão importante para ela? O resultado é uma protagonista completamente construída ao redor de sua paixão – e, embora alguns a achem snob demais, eu a achei genuína, com aquelas arestas típicas de alguém que ainda não aprendeu a equilibrar o que ama com quem ama.

Compre uma trilha sonora e ganhe um jogo de brinde / Reprodução: Autor

A narrativa não se preocupa em apresentar eventos de forma linear ou objetiva; eles mudam de tom dependendo de quem os experimenta, e o jogo frequentemente abandona o realismo em favor de reinterpretações estilizadas conduzidas pela música e pelo estado emocional dos personagens. Até momentos relativamente mundanos, como caminhar pelas ruas do subúrbio ou esperar do lado de fora de uma casa, são tratados como material narrativo que pode ser reconfigurado de acordo com o contexto emocional.

Não espere grandes reviravoltas ou uma trama complexa cheia de mistérios. Mixtape é uma história pequena sobre coisas grandes: o fim de uma fase, o medo do que vem depois, a saudade antecipada de quem você ainda nem deixou para trás.

O lado B

As músicas funcionam como videoclipes jogáveis, com a Beethoven & Dinosaur oferecendo interatividade leve para engajar o jogador com a história. Você faz manobras de skate descendo uma colina, tira fotos, joga pedras no lago, rebate bolas de baseball e flutua preguiçosamente em um dia chuvoso. As sequências musicais te fazem conduzir fogos de artifício, explorar quartos repletos de fitas cassete e muito mais. Não é um jogo de ritmo, mas a música informa praticamente tudo que você faz em cada vinheta.

Mixtape é estruturado como uma sequência linear de vinhetas interativas projetadas para serem experienciadas, e não resolvidas, com a progressão medida pelo engajamento emocional em vez de habilidade ou julgamento. Traduzindo: não há game over, não há punição, não há dificuldade no sentido tradicional. Há estados de falha na gameplay, mas sem penalidades, permitindo que você reinicie e continue a história como se nada tivesse acontecido. Nunca perder esse fluxo é parte do que torna o jogo tão especial, já que a frustração típica de começar tudo de novo simplesmente não existe.

Dito isso, o que a mecânica entrega dentro de cada cena é variado o suficiente para nunca cansar. Há uma constante alternância entre cenas cinemáticas – como a abertura com skate descendo uma estrada de montanha – e sequências puramente jogáveis, como quando dois adolescentes se beijam e você precisa controlar suas línguas para garantir que o beijo aconteça direito. Essa parte é absolutamente hilária. É esse equilíbrio entre comédia e emoção que faz Mixtape funcionar tão bem: o jogo não tem medo de ser bobo, e essa leveza torna os momentos mais pesados ainda mais impactantes.

Oh boy / Reprodução: Autor

A experiência dura entre três e quatro horas, e isso é proposital. Mixtape sabe exatamente a hora de acabar – e acaba. Sem enrolação, sem aquela sensação de que o jogo está se repetindo só para parecer maior. É curto porque precisa ser curto, e ponto.

Isso é um jogo?

Tá, vamos falar do elefante na sala. Desde o lançamento, Mixtape virou centro de uma discussão que, honestamente, me faz perder a fé na humanidade a cada vez que leio: alguns jogadores argumentam que Mixtape “não é um jogo de verdade” por não ter estados de falha e mecânicas tradicionais de gameplay. Outros vão além e chamam a Beethoven & Dinosaur de “falso estúdio indie” por conta da trilha sonora licenciada. Há também críticas ao fato de o jogo durar apenas três horas, e ceticismo sobre as notas altas da crítica especializada.

Vou ser direto: videogame é arte. Essa afirmação não é nova, mas parece que precisamos repeti-la toda vez que um jogo ousa escapar da fórmula. Quando Ebert insistia que jogos nunca seriam arte, a indústria respondeu com obras como Shadow of the Colossus, Okami e Flower. A discussão de que “isso não é um jogo” já foi usada contra Dear Esther, Journey, What Remains of Edith Finch e muitos outros – e a história mostrou quem estava certo em cada um desses casos.

Mixtape conta uma história que o cinema não poderia contar da mesma forma, porque o cinema não coloca você dentro da memória de Stacy. A literatura não poderia contar da mesma forma, porque a literatura não te faz sentir That’s Good, do Devo, explodindo enquanto você anda de skate ladeira abaixo com seus melhores amigos. Isso é único do videogame como mídia. Negar isso é simplesmente não entender o que a mídia é capaz de fazer – e, pior, é pedir que ela seja sempre a mesma coisa.

Para todos aqueles que odiaram Mixtape / Reprodução: Autor

Jogos como Life is Strange e as séries da Telltale possuem um loop similar, e ninguém os chama de “não-jogos”. Mixtape oferece respiro das grandes produções de alto orçamento em favor de algo significativo, singelo e aconchegante. Se você acha que o único videogame válido é aquele com combate complexo e cem horas de conteúdo, tudo bem – mas reconheça que a limitação é sua, não do jogo.

Outra crítica que circula bastante é a da “nostalgia falsa”: a ideia de que quem deu nota alta para Mixtape nunca viveu a experiência americana dos anos 90, e que, portanto, estaria se emocionando com algo que não lhe pertence. É um argumento que soa inteligente mas desmorona com facilidade. Mixtape não é sobre a América. Não é sobre fitas cassete, discos de vinil ou sobre a cultura específica de uma cidadezinha californinana. É sobre a última noite com seus melhores amigos antes de tudo mudar. É sobre a saudade antecipada, a festa que você quer que dure para sempre, o silêncio na volta pra casa que diz mais do que qualquer conversa. Isso não é nostalgia americana – é adolescência, e adolescência é universal. Quem nunca viveu aquele momento de transição entre o que foi e o que vai ser, independente do país, da década ou da trilha sonora? A ambientação é uma casca; o que está dentro é humano. Precisar ter crescido ouvindo The Cure em Blue Moon Lagoon para se emocionar com Mixtape é o mesmo que precisar ser um cowboy do século XIX para sentir o peso de Red Dead Redemption 2.

Adolescente fazendo besteira, que grande novidade, não? / Reprodução: Autor

Spider-Verse, John Hughes e um walkman

Visualmente, Mixtape é simplesmente impressionante. O jogo utiliza animação inspirada no stop-motion, frequentemente comparada a filmes de animação modernos e estilizados. Sua identidade visual alterna entre fragmentos de memória surreais e realismo mais contido, construído na Unreal Engine 5, enfatizando o humor sobre a densidade de detalhes, com mudanças de iluminação e textura usadas para refletir estados emocionais.

A apresentação geral do jogo lembra uma mistura do estilo de animação de baixo framerate de Into the Spider-Verse com a direção de John Hughes – precursor do gênero “coming-at-age”, ou cinema adolescente. Cada cena tem uma identidade visual distinta – e é impossível não parar a cada instante para tirar um print e se perguntar como algo tão belo foi feito.

Que jogo LINDO / Reprodução: Autor

A trilha sonora conta com músicas de artistas icônicos como Devo, Roxy Music, Lush, The Smashing Pumpkins, Iggy Pop, Siouxsie and the Banshees, Joy Division e The Cure. É uma seleção impecável, que captura perfeitamente o espírito de uma geração que cresceu colando em fitas cassete a identidade que ainda estava tentando descobrir. Cada música é usada com precisão cirúrgica dentro das vinhetas – não como fundo musical genérico, mas como elemento narrativo que transforma completamente o que você está jogando naquele momento.

Caminhando no ar, literalmente / Reprodução: Autor

Lado A termina, lado B começa

Mixtape é exatamente o tipo de experiência que justifica a existência dos videogames como forma de arte. A Beethoven & Dinosaur – com o total apoio criativo da Annapurna Interactive – entregou algo que nenhum outro meio poderia replicar: uma memória interativa, sonora e emocional sobre a dor bonita de crescer. Com vinhetas criativas e variadas, uma trilha sonora que poderia facilmente ser a melhor dos últimos anos e uma direção visual que rivaliza com as maiores obras da indústria, Mixtape deixa uma marca que vai durar muito além de suas três horas de jornada.

Não é um jogo perfeito – quem busca desafio vai ficar frustrado, e o replay é praticamente nulo. Mas, para quem está disposto a se entregar, Mixtape é uma das experiências mais bonitas, sinceras e necessárias de 2026. Coloque seus fones de ouvido, aperte play e deixe Blue Moon Lagoon te levar.

Esta análise é baseada na cópia de PC fornecida pela Tara Bruno PR e Annapurna Interactive

Mixtape
10
Compartilhe esse artigo
Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *