Game Freak. Só o nome já é sinônimo de Pokémon, franquia que praticamente carrega o estúdio nas costas há três décadas. Mas nem só de monstros de bolso vive a desenvolvedora japonesa: de tempos em tempos, a Game Freak resolve se aventurar fora da zona de conforto, e Beast of Reincarnation é, de longe, a tentativa mais ambiciosa desses experimentos. Publicado pela Fictions, o jogo chega como o primeiro grande RPG de ação do estúdio fora do universo Pokémon, e também sua estreia oficial no PlayStation 5 e Xbox Series X|S.
A expectativa em cima do projeto era alta. Desde o anúncio, em 2025, comparações com NieR: Automata e Sekiro: Shadows Die Twice praticamente perseguiram Beast of Reincarnation, e o próprio jogo não faz muito esforço para escondê-las. A pergunta que fica é: será que a Game Freak conseguiu equilibrar toda essa ambição, ou o resultado final ficou preso entre boas ideias e uma execução irregular? Vem comigo conferir essa jornada de uma garota e seu cachorro por um Japão devastado!
Ano 4026
Beast of Reincarnation nos coloca no Japão do ano 4026, um mundo tomado por uma corrupção conhecida como Blight, que transformou boa parte da vida selvagem em criaturas monstruosas chamadas Malefacts. Controlamos Emma, uma jovem exilada de sua vila por carregar o próprio Blight dentro de si, funcionando como uma Sealer, capaz de absorver a energia corrompida de criaturas poderosas conhecidas como Nushi e usá-la como arma contra a ameaça que carrega o nome do jogo, a Beast of Reincarnation, um ser cuja derrota é a única forma de manter a humanidade a salvo por mais um século.
Ao seu lado está Koo, um cachorro que mais parece lobo igualmente afetado pelo Blight, resgatado por Emma logo no início da aventura. A dupla parte em uma jornada através de um Japão irreconhecível, acompanhada por outros dois personagens: Kagura, moradora salva por Emma durante um ataque e responsável pela cozinha a bordo do veículo-base Cleanse Walker, e Brad, o piloto grisalho do grupo. Há ainda Violet, uma presença misteriosa que só Emma consegue ver e ouvir, e que carrega boa parte do mistério em torno do passado da protagonista.

No papel, é uma premissa interessante, e em determinados momentos o jogo realmente entrega boas ideias – a forma como o tema do luto, da perda e da relação entre tecnologia e humanidade vai sendo costurado ao longo da campanha tem seus méritos, principalmente no terço final, quando as revelações sobre a origem do Blight finalmente aparecem. O problema é o caminho até lá. A narrativa opta por um ritmo arrastado, recheado de cutscenes longas e didáticas, que insistem em explicar temas como amizade, família e superação de forma bem mais óbvia do que deveria – algo que, infelizmente, também ocorre em outros RPGs produzidos no Japão. Emma, em especial, é construída como uma protagonista retraída e pouco expressiva, o que funciona no papel, mas na prática acaba deixando boa parte dos diálogos com pouca vida. Enquanto os primeiros capítulos empolgam pelo mistério, o meio da campanha tropeça na repetitividade antes de finalmente engrenar de novo no fim.
Vale destacar que, ao menos para nós brasileiros, o jogo conta com legendas em português – não há dublagem nacional, mas dá pra acompanhar tudo sem depender do inglês ou japonês, o que já é um baita ponto positivo, considerando como alguns jogos do tipo costumam esquecer nosso idioma.

Um humano, um cachorro, e muito parry
É no combate que Beast of Reincarnation realmente mostra a que veio, e é também onde fica mais claro o motivo de tantas comparações com Sekiro e NieR. Emma luta com espada em mãos, apostando pesado em esquivas, parries e uma barra de postura que, quando zerada, permite golpes de execução brutais. Ao seu redor, arcos, adagas e habilidades ligadas a raízes e vinhas – incluindo um gancho de garra vegetal que lembra bastante o grappling hook de outros games do gênero – ampliam bastante as opções de combate.
O grande diferencial, porém, é Koo. Longe de ser um mero companheiro decorativo, o cachorro participa ativamente das lutas, executando ataques por conta própria e, principalmente, técnicas especiais elementais que podem ser acionadas pelo jogador conforme pontos de sincronia são acumulados através de parries bem-sucedidos – uma mecânica que lembra um pouco o sistema de comandos de Clair Obscur: Expedition 33, misturando ação em tempo real com escolhas mais táticas. A sensação de ser realmente uma dupla, e não uma heroína solitária com um mascote de enfeite, é o momento em que Beast of Reincarnation mais brilha.
O problema é que essa fórmula, por mais satisfatória que seja, não segura o jogo inteiro. A dificuldade dos combates comuns é surpreendentemente baixa para os padrões do gênero – recuperação de vida generosa, janelas de esquiva e parry bastante largas e ataques poderosos fáceis de executar tornam boa parte dos confrontos pouco desafiadores, mesmo para quem não é fã de soulslikes. Já nos chefes, que deveriam ser os grandes momentos de tensão da campanha, o problema é outro: a repetição. Vários Nushi e Malefacts de elite retornam repetidas vezes ao longo da história, reciclando padrões de ataque e animações, o que reduz boa parte do impacto que esses duelos deveriam ter. Some a isso um elenco de inimigos comuns relativamente pequeno, e o combate, mesmo divertido, começa a mostrar seus limites bem antes das cerca de 25 a 30 horas que a campanha principal exige para ser concluída.

Um Japão em ruínas (e um tanto repetitivo)
A ambientação de Beast of Reincarnation também merece elogios e ressalvas na mesma medida. A jornada de Emma e Koo passa por diferentes regiões do Japão, da área de Kanto até Kyoto, sempre com aquela estética de natureza tomando conta de um mundo tecnológico abandonado – uma mistura de elementos orgânicos com estruturas mecânicas e restos da civilização humana que rendem cenários realmente bonitos de se admirar, principalmente quando o Blight se manifesta através de criaturas que fundem esqueletos de animais com vegetação.
O problema é que, apesar da beleza pontual, os ambientes acabam se tornando visualmente repetitivos conforme avançamos, com biomas que reaproveitam bastante a mesma paleta e os mesmos tipos de estrutura. A exploração, embora recompense a curiosidade com materiais de crafting, ingredientes para as receitas de Kagura e pedras espirituais para equipamentos, não chega a surpreender: plataformas simples, puzzles ambientais básicos e um ou outro colecionável espalhado pelo caminho compõem a experiência, sem grandes inovações. Existe também um sistema de afinidade com Koo e Kagura, alimentado por interações no Cleanse Walker, que desbloqueia diálogos e recompensas extras – um detalhe carinhoso, mas que não chega a mudar o panorama geral da experiência.
No fim das contas, fica a sensação de um mundo construído com cuidado estético, mas sem substância suficiente de gameplay para sustentar sua duração. É bonito de se ver, divertido de se explorar por algumas horas, mas cansativo quando se estica demais.

Raízes, luz e alguns engasgos
Visualmente, Beast of Reincarnation impressiona bastante em termos de direção de arte: o contraste entre tecnologia decadente e natureza tomando tudo de volta é um espetáculo à parte. O problema é que, tecnicamente, o jogo não acompanha esse capricho artístico. Mesmo rodando na Unreal Engine 5, a iluminação apresenta sinais datados, com ou sem ray tracing ativado, ficando devendo se comparado a outros títulos recentes da engine. Além disso, a opção de pós-processamento parece não funcionar como deveria: ativada, ela deixa a imagem com um visual borrado e pouco nítido, e a recomendação é mantê-la na configuração mais baixa possível, o que ajuda (e muito) na nitidez geral da experiência.
O desempenho como um todo tende a ser sólido no decorrer da campanha, mas vale um aviso: a primeira hora de jogo costuma apresentar stutterings constantes, já que Beast of Reincarnation compila shaders enquanto jogamos, em vez de fazer esse processo na abertura do game. Depois desse período inicial, a experiência se estabiliza bem, embora quem tenha hardwares mais modestos ainda deva sentir uma ou outra queda de frame rate e pop-in de texturas pontuais.
A trilha sonora é um dos pontos mais consistentes do pacote: etérea, melancólica e sempre alinhada ao tom sombrio da narrativa, ela consegue carregar cenas que, de outra forma, poderiam soar mais monótonas. Já a dublagem em inglês é competente, embora a interpretação propositalmente contida de Emma possa incomodar quem espera uma protagonista mais expressiva.

Uma jornada com pé atrás
Beast of Reincarnation é, sem dúvidas, um passo corajoso da Game Freak para fora da zona de conforto, e boa parte do que funciona aqui – o vínculo entre Emma e Koo, o combate híbrido entre espada e comandos ao cachorro, a direção de arte melancólica – mostra um estúdio genuinamente talentoso tentando algo novo. O problema é que a experiência como um todo esbarra em decisões que comprometem seu potencial: uma narrativa que demora demais para engrenar, chefes reciclados em excesso, ambientes repetitivos e uma otimização no PC que ainda precisa de ajustes.
É um jogo que tem, sim, momentos de brilho genuíno, principalmente quando o combate com Koo está no seu auge ou quando a história finalmente resolve se abrir. Mas são momentos cercados por um bocado de arrasto, repetição e uma sensação constante de “quase lá”. Vale a pena para quem gosta do gênero e está disposto a relevar alguns tropeços, mas está longe de ser o salto definitivo que a Game Freak talvez estivesse buscando fora de Pokémon.
Esta análise é baseada na cópia de PC fornecida pela Theogames e Fictions




