MARVEL Tōkon: Fighting Souls – Análise

Alan Motta Cardoso (@Alanzice)
Alan Motta Cardoso (@Alanzice)

Depois de muito tempo sem um jogo de luta relevante com os heróis e vilões da Marvel, quem assumiu a missão de reviver esse conceito foi ninguém menos que a Arc System Works, a mesma por trás das icônicas franquias Guilty Gear e BlazBlue, além do recente Dragon Ball FighterZ, mas agora em parceria com a PlayStation Studios e a Marvel Games.

O que posso dizer é que o resultado é um dos jogos de luta mais empolgantes dos últimos anos, pelo menos na versão de PlayStation 5, onde o jogo roda perfeitamente – já que a versão de PC está tomada por problemas técnicos desde o lançamento.

Chega junto e confira todos os detalhes de mais uma pérola da Arc System Works!

Não é Marvel vs. Capcom, e isso é bom

Diferente do que muitos esperavam, Tokon não é um sucessor espiritual de Marvel vs. Capcom, estando mais próximo de Dragon Ball FighterZ, com uma pitada de Guilty Gear, somados a uma nova estrutura de equipe. Para o jogo, a Arc System Works trouxe uma grande sacada: uma única barra de vida para o time todo.

Essa nova estrutura foi a mecânica que mais me pegou de surpresa. Diferente de outros jogos de luta, aqui não existe uma barra de vida por personagem. O time inteiro compartilha uma única barra de vida. Esqueça aquele velho truque de aproveitar outro personagem que está com a barra cheia que estamos acostumados a fazer em outros jogos do gênero. Em Tokon, não há essa possibilidade.

Com isso, a gestão da barra de vida vira o centro da estratégia, forçando o jogador a pensar, com precisão, quando chamar uma assistência (que também toma dano), quando trocar de personagem, quando arriscar e quanto recuar.

Essa mecânica tem mais uma camada interessante a ser destacada. O time que perde um round consegue liberar automaticamente mais um personagem selecionado para a próxima rodada, enquanto o time vencedor só ganha esse reforço antecipado se cumprir certos requisitos durante o combate – como quebrar a parede do cenário com o adversário encurralado, o famoso Wall Break. Dessa forma, o jogador em desvantagem ganha uma folga, enquanto quem está ganhando precisa trabalhar para receber o bônus.

Tudo isso é o verdadeiro diferencial de Tokon em relação a outros jogos do gênero. Não basta apenas gerenciar personagens, mas sim recursos o tempo todo, tornando as partidas dinâmicas e cautelosas ao mesmo tempo. Se as decisões tomadas pela Arc System Works são boas ou ruins, quem decide são os jogadores. Mas considerando a ótima recepção do jogo, acredito que as mudanças estão mais do que aprovadas pela comunidade.

Reprodução: Divulgação

Skill Gauge, Link Attacks e o sistema de assistências

Complementando essa barra de vida compartilhada, existe a Skill Gauge, que vai de 0 a 150 e alimenta praticamente tudo que é vistoso no jogo: golpes EX custam 25 pontos, Super Skills custam 50, Ultimate Skills (supers de nível 2) custam 100, e o Tokon Assemble (super de nível 3), consome a barra cheia.

O jogo também possui os Link Attacks, um sistema de combo automático dividido entre as rotas Leve, Média e Pesada, que podem entregar desde uma simples assistência até um Ultimate Skill, dependendo do botão utilizado, sendo um recurso generoso com iniciantes, que tanto sentem dificuldades por conta das barreiras e da curva de aprendizado em jogos de luta.

Tokon também conta com um sistema de assistências chamado de Assemble, que permite chamar seus companheiros de banco através de uma direção mais botão correspondente, criando aquelas tradicionais cenas em que todo mundo bate ao mesmo tempo, características dos jogos de luta envolvendo a Marvel.

Reprodução: Divulgação

Cinco times, cinco quadrinhos

Um dos maiores acertos de Tokon é a forma como ele encara o modo história. Aqui você tem cinco histórias distintas, uma para cada time do jogo (Fighting Avengers, Unbreakable X-Men, Amazing Guardians, Samurai Outriders e Knights of Doom). Todas são conduzidas de forma descontraída e divertida, sem se levar muito a sério. E a parte mais legal disso tudo é que as histórias são contadas em formato de quadrinhos, com cada time tendo seu próprio artista e colorista, criando uma identidade visual completamente diferente para cada arco. Vale destacar a história do Doutor Destino, que conta com o brasileiro Jão Canola como colorista.

Apesar da apresentação, o modo história acaba esbarrando em limitações tradicionais do gênero de luta. Cada uma das cinco histórias tem 10 capítulos que seguem exatamente as mesmas estruturas, sobrando pouco espaço para desenvolver os personagens e a trama. Por conta disso, Tokon não é muito diferente de outros jogos do gênero, mas acaba tendo uma pequena vantagem no desenvolvimento de personagens devido as suas histórias serem centradas em um time como um todo – embora nada seja muito elaborado.

Reprodução: Divulgação

Modos extras

Além das partidas tradicionais e o modo história, Tokon oferece alguns modos extras curiosos, apesar de nenhum deles ser chamativo o suficiente para prender o jogador. O mais curioso talvez seja o Arcadia Rumble, que mistura rodadas no estilo party game, onde controlamos um avatar chibi customizável dentro de um hub parecido com o lobby online, coletando itens que aumentam nossa força e enfrentando outros jogadores pelo cenário em tradicionais batalhas de Tokon.

Um tradicional modo Survival também marca presença para aqueles que desejam lutar sem parar, além de uma variação dentro do All-Star Arena que mistura alguns elementos de RPG, com possibilidades de escolha de atributos e criação de builds temporárias até você cair ou terminar a run.

Os modos extras são curiosos, mas não chegam a inovar muito além do que já vimos no gênero e não prendem a atenção do jogador por muito tempo.

Bom roster, mas ainda modesto

Aqui mora talvez minha maior ressalva do pacote todo: o roster de personagens é modesto até para os padrões de jogos de luta atuais, o que acaba pesando ainda mais quando o próprio jogo te obriga a montar times de quatro integrantes. Com um elenco enxuto, as combinações possíveis entre seu time e o time adversário acabam sendo relativamente pequenas. Felizmente, isso é amenizado um pouco por conta de referências mencionadas ao selecionar determinados times, sendo um prato cheio para fãs da Marvel. No mais, precisamos de novos lutadores.

Reprodução: Divulgação

Padrão Arc System Works

Quem conhece o trabalho da Arc System Works sabe muito bem que eles não decepcionam na parte visual, e aqui não é diferente. Todos os personagens disponíveis no game foram redesenhados com um traço forte e claramente inspirado em animes, cheios de linhas expressivas e cores vibrantes. Os cenários, baseados em locais icônicos do universo Marvel, também entregam personalidade e ótimas transições dinâmicas. Como falei lá no comecinho, no PlayStation 5, tudo roda liso e lindamente, sem os problemas que mancharam a versão de PC.

Reprodução: Divulgação

Dublado, mas irregular

Sempre que um jogo chega dublado eu fico genuinamente feliz, e ainda mais por ser o primeiro projeto dublado da Arc System Works. No entanto, assim como outros jogos envolvendo a Marvel e a PlayStation Studios, a polêmica mistura entre português e inglês está presente em meio a dublagem, principalmente quando o nome dos personagens é mencionado, quebrando a imersão e a possibilidade de termos uma localização impecável.

Já passou da hora de extinguir a “americanização” dos nomes dos personagens da Marvel nos jogos da PlayStation. É feio, e faz parecer que são brasileiros tentando meter um inglês perfeito no meio de uma conversa – daqueles tipos que irritam a pessoa, vocês sabem bem como é. Aqui é Brasil!

Experiência online padrão

A estrutura online brilha em termos de conteúdo, com lobbies que comportam até 64 jogadores, ferramentas de treino muito bem construídas, sistema de replay que permite retomar uma partida gravada para praticar combos específicos, e o bom e velho versus tradicional. Tudo isso, aliado ao netcode, funciona redondinho, sendo uma experiência impecável no PlayStation 5, algo até raro de se ver em jogos de luta, que costumam ter uma primeira semana de lançamento bem conturbada devido a problemas técnicos.

Concluindo

MARVEL Tōkon: Fighting Souls é a prova de que ainda dá pra reinventar a roda em um gênero estabelecido. A barra de vida compartilhada muda completamente a forma como você pensa estrategicamente para uma partida, o sistema de assistências e trocas é cheio de nuances, e o modo história, apesar de preso à fórmula tradicional do gênero, tem seu destaque especial por sua apresentação em quadrinho e diferentes artistas para cada time. Os modos extras estão ali para uma diversão temporária, o roster poderia ser maior e a dublagem em português, ainda que inconsistente, é um baita presente para o público brasileiro.

No fim, os problemas de Tokon são pontuais perto de uma experiência extremamente sólida, criativa e viciante. Se você é fã de Marvel, de jogos de luta, ou dos dois, Tokon merece toda sua atenção.

Esta análise é baseada na cópia de PlayStation 5 fornecida pela PlayStation

MARVEL Tōkon: Fighting Souls
8.5
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