REPLACED – Análise

Douglas Souza Dos Santos (@Cliffburtonildo1)
Douglas Souza Dos Santos (@Cliffburtonildo1)

REPLACED chamou a atenção de muita gente durante a apresentação da extinta E3 2021. Muitas pessoas se interessaram pelo game, principalmente por seu visual retrofuturista, que destaca um estilo pixel art aliado a uma iluminação moderna e a diversas jogadas de câmera.

Desenvolvido pela Sad Cat Studios e distribuído pela Thunderful Publishing, REPLACED é um sidescroller 2.5D com temática cyberpunk, misturando seções de plataforma com uma narrativa cinematográfica. Vista seu sobretudo, pegue seu Walkman e embarque nesta incrível aventura para contemplar cada cenário da bela Phoenix-City.

Seus ossos são de metal?

REPLACED é ambientado em uma versão alternativa de 1984, nos Estados Unidos, onde um desastre nuclear pós-Segunda Guerra Mundial levou ao colapso da sociedade, abrindo espaço para o domínio absoluto da Phoenix Corporation sobre a imponente Phoenix-City. Esse pano de fundo não serve apenas como estética; ele sustenta uma narrativa densa, que explora desigualdade social, sobrevivência e, principalmente, identidade.

A sociedade é brutalmente segregada: a elite vive protegida e esbanja recursos atrás dos muros da cidade, enquanto os mais pobres habitam periferias destruídas e radioativas. Nessas zonas, gangues violentas ditam as regras, e órgãos humanos se tornaram uma das moedas de troca mais valiosas do mercado ilegal.

A história acompanha Warren, cuja vida muda radicalmente após um incidente envolvendo a inteligência artificial Reach. Depois de uma explosão em seu laboratório, Reach se funde ao corpo do protagonista, estabelecendo uma relação simbiótica que rapidamente se transforma em um dos principais conflitos narrativos. A partir daí, essa IA precisa aprender a lidar com as limitações físicas, emoções e instintos de um corpo orgânico, enquanto tenta sobreviver em um mundo hostil que não compreende.

Apenas contemplem essa bela vista / Reprodução: Autor

Não cabe a você decidir quem vive ou quem morre

REPLACED me impressionou pela forma como conduz seu combate e, sinceramente, eu esperava algo muito mais enxuto e simplório nesse quesito, no estilo de Another World, com pouco combate e mais seções de plataforma – embora, vale dizer, o jogo tenha diversas delas, todas divertidíssimas e bem contemplativas.

Seu combate é simples, mas contém algumas camadas extras que, ao meu ver, impedem que ele se torne repetitivo até o fim da aventura. Temos em nosso arsenal a Huxley, uma arma multifuncional que alterna entre um bastão corpo a corpo e uma arma de fogo.

O combate de REPLACED é construído sobre uma base interessante de mecânicas que buscam equilibrar agressividade, precisão e leitura de padrões, mas que, na prática, acabam esbarrando em problemas de consistência. A principal ideia gira em torno de um sistema que mistura ataque e defesa de forma dinâmica, incentivando o jogador a se manter ativo durante os confrontos. Um dos destaques é a possibilidade de realizar uma espécie de “parry” com a arma de fogo, permitindo ricochetear projéteis inimigos de volta contra eles.

Ao atacar e contra-atacar, o jogador acumula energia em um medidor que carrega a arma Huxley, utilizada como ferramenta de finalização – no estilo dos jogos da franquia Batman: Arkham. Esse medidor, no entanto, não é passivo: ele diminui caso o jogador adote uma postura muito defensiva, como esquivar demais ou evitar o combate direto. Isso força uma abordagem mais agressiva e ritmada, criando uma cadência que, quando funciona, transforma os confrontos em verdadeiras danças.

Outro elemento importante é a onda de choque, uma habilidade que funciona como ferramenta de controle de grupo e é carregada justamente ao executar esquivas bem-sucedidas. Além de causar dano, essa habilidade tem a função estratégica de quebrar defesas, ignorando escudos e armaduras – algo essencial diante da variedade de inimigos que o jogo apresenta.

A picareta, por sua vez, adiciona uma camada interessante ao gameplay. Além de sua função no combate, ela também é usada na exploração, permitindo que o jogador se agarre a superfícies específicas.

Apesar de todas essas boas ideias, o sistema sofre com um problema crítico: a inconsistência na resposta aos comandos. Em muitos momentos, o combate flui de maneira extremamente satisfatória, com animações bem encaixadas e respostas rápidas, criando uma sensação de domínio e precisão. No entanto, essa fluidez não é constante. Há situações em que os comandos simplesmente não respondem como deveriam, gerando atrasos notáveis que comprometem completamente o gameplay – especialmente em cenários onde o jogo coloca múltiplos inimigos simultaneamente na tela. Essa inconsistência transforma o combate em uma “faca de dois gumes”: ora recompensador, ora frustrante e punitivo de maneira injusta.

REPLACED também possui algumas batalhas contra chefes bastante interessantes. Claro, não são confrontos tão complexas, mas cumprem bem seu papel e, sinceramente, algumas dessas lutas me impressionaram positivamente.

Encontre Warren na imagem / Reprodução: Autor

Lutando contra a morte!

A exploração em REPLACED é um dos elementos que mais reforçam a imersão no game. Durante as fases, o jogador pode escanear diversos arquivos de texto espalhados pelo cenário, que não apenas enriquecem a narrativa, mas também são fundamentais para compreender os detalhes sociais, políticos e tecnológicos de Phoenix-City. Esse conteúdo não fica jogado de forma genérica; ele é acessado por meio de um Walkman retrofuturista – equipado com uma mini tela e botões físicos exagerados –, o que adiciona uma camada estética extremamente charmosa e coerente com a proposta do jogo. Além disso, a coleta de músicas complementa a ambientação e fortalece ainda mais a identidade do mundo.

No campo da interação, o sistema de hackeamento surge como uma ferramenta simples, porém funcional. Sensores de segurança podem ser invadidos e usados a favor do jogador por meio de pequenos puzzles baseados na combinação de padrões. Embora não seja particularmente desafiador, o sistema cumpre bem seu papel de diversificar o ritmo do gameplay.

Visualmente, REPLACED é um espetáculo. A estética retrofuturista é executada com um nível de detalhes impressionante, com cenários ricos em iluminação dinâmica, reflexos e uma densidade visual que salta aos olhos. As primeiras horas são especialmente marcantes, com ambientes carregados de neon e chuva, criando uma atmosfera quase palpável. A direção de arte não apenas impressiona tecnicamente, mas também transmite personalidade – cada cenário parece cuidadosamente construído para reforçar o tom melancólico e opressor da narrativa.

As movimentações de câmera também merecem destaque. Em momentos específicos, o jogo abandona a rigidez do side-scrolling tradicional para trazer enquadramentos mais cinematográficos, o que contribui bastante para certas cenas dramáticas e sequências de fuga.

No entanto, essa mesma densidade visual acaba se tornando um problema em situações mais exigentes de gameplay, especialmente nas sequências de stealth. A quantidade excessiva de informação na tela – como luzes, partículas e elementos de fundo – prejudica a leitura do ambiente e dificulta a identificação de inimigos, principalmente nas fases com drones vigias, tornando algumas seções mais frustrantes do que desafiadoras.

Nosso Walkman mega estiloso / Reprodução: Autor

Conclusão

REPLACED é um jogo que se destaca com facilidade pela sua identidade visual e pela força da sua ambientação, entregando um mundo denso, estiloso e carregado de significado. A narrativa, sustentada por temas como identidade e desigualdade, consegue se manter envolvente, enquanto a exploração reforça essa imersão com bons elementos de lore e interação.

Na jogabilidade, há uma base sólida e criativa, especialmente no combate, que propõe um ritmo interessante e recompensador quando tudo funciona como deveria. No entanto, as inconsistências na resposta dos comandos e alguns problemas de leitura em momentos mais caóticos acabam comprometendo essa experiência, gerando frustrações facilmente evitáveis.

Ainda assim, REPLACED acerta mais do que erra. É um jogo com ideias muito bem pensadas e uma execução que, embora não seja perfeita, entrega momentos memoráveis.

Esta análise é baseada na cópia de PC fornecida pela Plan of Attack e Thunderful Publishing

REPLACED
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