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[Objection!] Single Player Online, DLCs e outras polêmicas

A nova era dos games é boa para o consumidor? Quando eu falo consumidor, eu quero dizer, eu, você, seus amigos que jogam e curtem games. E quando eu falo em nova era, eu falo de DLCs, edições especiais, conexão permanente a internet e bloqueio a jogos usados. Então, isso tudo é bom para quem?

Quando se fala em mercado, entendemos que temos alguém que compra e alguém que vende alguma coisa. Também entendemos que o consumidor precisa querer o produto e alguém deve ter o produto a venda para que o negócio aconteça. Também entendemos que não se vende alguma coisa que ninguém quer, por isso não existem descascadores de banana ou desentortadores de talheres por aí.

Vamos manter a ideia anterior em mente para refletirmos sobre o que vou dizer nas linhas a seguir. A alguns anos atrás (alguns não, muitos) comprar um jogo era uma experiência complicada. Eu lembro claramente que juntar grana na época dos cartuchos era difícil. Mesmo assim, com algum esforço, comprávamos nossos jogos. A parte complicada era escolher o jogo. Mesmo com o problema da pirataria, um jogo era uma compra sensível porque cartuchos piratas não eram vendidos a preço baixo como eram os CDs da era PlayStation. Então, líamos sobre o jogo, alugávamos, conhecíamos e só depois comprávamos. Ter 30, 40, 50 jogos era um luxo que eu nunca tive.

Como fazer então? Na época, trocávamos jogos na escola e até fazíamos clubes de troca. Combinávamos até na hora de comprar, para que um não comprasse o jogo que outro tem e pudéssemos trocar depois. Era um tempo em que o jogo era nosso.

Bom, na verdade não é bem assim. Se alguém já parou para ler os termos que serviço de algum software, deve ter reparado que o termo se chama LICENÇA DE USO de software, ou seja, o software (jogo, programa, aplicativo, o que for) é da DESENVOLVEDORA, ou seja você paga o direito de usar aquele software, paga para poder usar. Em suma, o jogo não é seu. Senta e chora.

Bom, mas o que isso tem a ver com mercado e tudo aquilo escrito lá em cima? Vamos lá. Imagina que você ganhou uma bola da sua mãe. Ela é linda, redonda e brilhante. Agora imagina que a sua mãe diz que você pode brincar com ela com a seguinte condição:

  1. Você só pode brincar sozinho se estiver vestindo o uniforme oficial do clube, a chuteira e o meião;
  2. Você pode deixar os seus amigos jogarem, desde que eles também esteja uniformizado e tenham uma bola igual;
  3. Depois que você enjoar de jogar, você deve guardá-la até que sinta vontade de jogar novamente;
  4. Você não pode vender, emprestar ou permitir que outra pessoa use a bola além de você, assim como não pode usar a bola para jogar qualquer outra coisa que não seja jogar futebol.
  5. A bomba para encher a bola é vendida separadamente…..e a bola veio vazia!

Ah…..acho que vou ver televisão mesmo.

O meu ponto com tudo isso é que a diversão acaba e o principal propósito dos jogos se perde. Caramba, a gente só quer pegar o jogo e jogar. A polêmica toda com o Diablo 3 se justifica em muitos sentidos. A Blizzard (e a Activision) tem todo o direito de proteger o seu jogo, com a exigência da conexão permanente, isso impede que jogo seja copiado, que a pirataria role solta e que alguém além de você use o seu jogo. Mas o lado do consumidor se justifica também. Eu paguei R$ 100 reais pelo jogo e quero jogar AGORA!!!! Os servidores estarem cheios, erro no login, isso tudo é problema da Blizzard. O meu problema é que eu paguei e não levei.

E não é só isso, quantas vezes vemos jogos que tem função online e offline terem os seus servidores desligados mesmo quando PAGAMOS também pela função online. Não deveríamos ter parte do nosso dinheiro devolvido?? Bom, não. O contrato também diz que eles podem desligar os servidores quando quiserem e tudo o que você pode fazer é sentar e chorar. Ou seja, as reclamações fazem sentido, mas o que podemos fazer se aceitamos os contratos? Alguém já leu aquela joça? Vamos ler e entender.

A polêmica da Capcom com os DLCs em disco é outra. Quanto vale o jogo que compramos? Quando os DLCs surgiram, eles vieram como uma opção de ADICIONAR conteúdo extra em um jogo, ou seja, alguma coisa que a empresa achou legal fazer DEPOIS do jogo concluído. A empresa então, investe, gasta e faz o conteúdo. Logicamente, vai cobrar pelo conteúdo para que possa ver aquele investimento retornar.

Infelizmente, as empresas (não apenas a Capcom, como outras) estão vendo os DLCs como uma maneira de ganhar mais dinheiro com o mesmo jogo! Se virmos os exemplo de StreetFighter X Tekken, vemos justamente isso. O jogo já está pronto, completo no disco e você paga US$ 60,00 por ele. Porém, ainda existe um conteúdo bloqueado no disco pelo qual você ainda terá que pagar MAIS US$ 20,00. Sério! Eu me sentiria mesmo insultado se eles cobrassem US$ 80,00 de uma vez. Porque fazer isso é querer me chamar de otário e ainda me cobrar por isso. Hoje, a Capcom está sofrendo os resultados da sua própria ganância, este mesmo StreetFighter X Tekken vendeu abaixo do esperado porque todo mundo está esperando uma versão “Super” ou “Ultimate”. E sinceramente, espero que tudo vá ladeira abaixo se a empresa não rever os seus conceitos.

Estamos entrando em um momento extremamente perigoso para nós consumidores porque pagamos cada vez mais para receber cada vez menos. Entendo que as desenvolvedoras de games gastam mais para produzir, mas os preços dos jogos sobem e nossos direitos sobre eles diminuem. Estamos na iminência de ter PS4 e Xbox 720/Xbox 8 e estes podem vir com todas aquelas restrições que mencionei anteriormente no exemplo da bola. E isso tudo é preocupante. Preocupante porque vemos as empresas (desenvolvedoras e publishers) exercendo um poder que incomoda, e incomoda muito. Parece que, no futuro, mais do que nunca, não seremos mesmo donos de nossos jogos e a sensação é que o pior ainda está por vir.

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Rodrigo de Souza

Game Designer, Professor e Pai (Não nessa ordem).
Gamer também, quando dá tempo.

Comentários

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4 Comentários

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  • Achei totalmente pertinente e uma visão real da coisa. Mas o poder de muitos dos jogos está na tradição, Diablo III é prova disso.
    Ninguém se importa realmente se o jogo é básicamente uma versão parecida com Diablo II, Se tem a mesma mecânica, tela, mudou o pano de fundo, fases, história… O que importa é que todos jogaram Diablo I e Diablo II, agora todo mundo quer jogar o III. Essa vontade prévia dá poder aos desenvolvedores maior e mais abusivo, mas tão pouco é possível mudar por agora. Talvez jogos tradicionais começam a perder força por conta disso.
    Se tivesse um Starcraft III hoje em dia, ele não teria mais a mesma força, pra mim a franquia se perdeu.
    Acho que depois dessa versão do Diablo III dificilmente haverão tantos fãs querendo jogar Diablo IV.

    De qualquer forma avistar a mudança do mercado, da percepção do consumidor (nós, jogadores), ainda está distante de poder ser concluida.

  • Belo texto como sempre, Rodrigo. O mercado de games só é assim porque tem quem pague. Enquanto tiverem pessoas dispostas a pagar por tudo isso, teremos abusos e excessos como os que você citou no texto.

  • Três exemplos recentes:
    1) O Onlive vendia jogos a preço full (em 2011) mas a licença vale por apenas 3 anos. O que acontece depois? Ninguém sabe.
    2) EA retirando joguinho musical do iPhone. O mais bizarro é que avisaram que  jogo dá adeus em 31/05/12 mas CONTINUAM A VENDÊ-LO.
    3) Extrapolando os games, a Amazon foi proibida de vender um título em sua loja e o DELETOU SEM AVISO PRÉVIO DE TODOS OS KINDLES DE QUEM COMPROU O EBOOK.

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